sábado, 5 de março de 2016

A degradação do sistema BRT recifense acontece a olhos vistos. Que dor!




Ele foi projetado para ser o transporte do futuro. Quando o então governador Eduardo Campos decidiu que iria copiar o modelo de Curitiba, no Paraná, ainda em 2009, a promessa era de um sistema de transporte de alto nível, com qualidade, conforto, beleza e higiene. E tudo isso sem novos custos para a população. Mas as promessas se perderam no vento e, hoje, quase dois anos depois de uma operação capenga, o sistema de BRT (Bus Rapid Transit) do Grande Recife, batizado de Via Livre, se deteriora a olhos vistos. Os ônibus, que custaram entre R$ 700 e 800 mil, estão sendo avariados porque continuam trafegando sem ou com pouca prioridade viária, disputando espaço com os veículos particulares e outros coletivos. E as estações sofrem com a cara manutenção – quase R$ 1 milhão por mês – e a falta de recursos para promover melhorias.
Gastamos R$ 8 mil somente nos últimos três meses. Apelamos à população para que colabore cuidando do sistema”,
João Batista, coordenador de engenharia do Consórcio Grande Recife
Confira o especial multimídia O Transporte do Futuro, produzido pela repórter Roberta Soares, em 2009, quando Pernambuco sonhava com um sistema de BRT eficiente, igual ao de Curitiba.

Quem percorre os dois corredores recifenses de BRT (Norte-Sul, com 33 quilômetros, e o Leste-Oeste, com 15 quilômetros) percebe o quanto largado está o sistema. Nota sem dificuldade a degradação em toda a parte. Em algumas estações, o dano material é evidente, mas em outras não. A falta de fôlego financeiro do poder público – nesse caso leia-se o Grande Recife Consórcio de Transporte e a Secretaria Estadual das Cidades – é mais subjetiva. Mas basta olhar com um pouco de atenção que se percebe.
Os horríveis gelos-baianos viraram acessório de proteção das estações. Fotos: Fernando da Hora/JC Imagem
Os horríveis gelos-baianos viraram acessório de proteção das estações. Fotos: Fernando da Hora/JC Imagem

O ar-condicionado da maioria das estações já não proporciona a mesma refrigeração de antes e é comum encontrar alguns quebrados ou desativados. Portas de vidro danificadas são frequentes nos dois corredores, resultado de constantes atos de vandalismo. O Consórcio Grande Recife tenta conscientizar a população sobre a importância de preservar o sistema BRT por ser mais caro e tem adesivado algumas das portas danificadas, mas muitos dos passageiros sequer percebem a ação. O chão das estações está sujo, assim como os vidros internos e externos – vale ressaltar que são vidros temperados, caros, escolhidos para minimizar a sensação de calor dos usuários. Percebe-se que não são lavados com frequência. Algumas estações do Corredor Leste-Oeste têm marcas do resíduo liberado pelo cano de escape dos BRTs e, como a limpeza não é feita regularmente, manchas negras predominam na cobertura.
Estação Tacaruna, do Leste-Oeste, está com a cobertura destruída há mais de um ano
Estação Tacaruna, do Leste-Oeste, está com a cobertura destruída há mais de um ano

Quando o enfoque é o dano físico do BRT, os problemas se tornam ainda maiores. Por falta da segregação física para o tráfego exclusivo dos veículos, pelo menos seis estações estão com as coberturas parcialmente destruídas. Algumas, como a Tacaruna (Corredor Norte-Sul), está assim há mais de um ano. O entorno das unidades também é deprimente. A prometida urbanização anunciada nos projetos de BRT também foi esquecida no caso do sistema recifense. Não há calçadas nem arborização. No máximo, semáforos para ajudar na travessia dos pedestres. Gelos-baianos – muitos deles pichados – foram transformados em equipamentos de proteção das estações. A impressão é de que, de fato, se preocuparam apenas em instalar o sistema, sem integrá-lo de forma agradável ao ambiente existente.

Jogou a toalha? Sem recursos para concluir as obras, Consórcio Grande Recife decide tapumar as estações para evitar mais vandalismo
Jogou a toalha? Sem recursos para concluir as obras, Consórcio Grande Recife decide tapumar as estações para evitar mais vandalismo

O Estado se constrange quando fala do assunto. Responsável pela operação do sistema, o Consórcio Grande Recife luta para garantir a boa operação do BRT mesmo sem os recursos ideais. A manutenção de cada estação custa, por mês, R$ 22 mil. Hoje, são 29 estações em operação. Deveriam ser 54. “Sofremos muito com o vandalismo e a situação não está pior porque estamos sempre trocando as portas de vidro. Mas os recursos são poucos. A crise está em todo lugar. Gastamos R$ 8 mil somente nos últimos três meses. Apelamos à população para que colabore cuidando do sistema”, diz João Batista, coordenador de engenharia do órgão.
Em três meses, o Estado gastou R$ 8 mil para trocar as portas de vidro. Estações foram caras e são ainda mais caras para manter: R$ 22 mil cada uma por mês
Em três meses, o Estado gastou R$ 8 mil para trocar as portas de vidro. Estações custaram muito e são ainda mais caras para manter: R$ 22 mil cada uma por mês

CORREDOR VIA LIVRE NORTE/SUL

24 Estações em operação – Deveriam ser 28
Demanda de 36 mil usuários/dia – Eram 180 mil/dia
5 linhas de BRT em operação
Estações em operação: Cruz de Rebouças, Abreu e Lima, José de Alencar, Hospital Central, São Salvador do Mundo, Cidade Tabajará, Jupirá, Aloísio Magalhães, Bultrins, Quartel, Sítio Histórico, Mathias de Albuquerque, Kennedy, Tacaruna, Santa Casa da Misericórdia, Araripina, IEP, Treze de Maio, Riachuelo, Praça da República, Nossa Senhora do Carmo, Maurício de Nassau, Istmo do Recife e Forte do Brum.

CORREDOR VIA LIVRE LESTE/OESTE
15 Estações – Deveriam ser 26
Demanda de 50 mil usuários/dia – A previsão era de 155 mil/dia
3 linhas de BRT em operação
Estações em operação: Areinha, Barreiras, Padre Cícero, Capibaribe, Engenho Poeta, Riacho do Cavoco, BR-101, Caiara, Parque do Cordeiro, Forte do Arraial, Getúlio Vargas, Zumbi, Abolição, Derby e Guararapes.
22 mil reais é o custo de manutenção de cada uma das estações
8 mil reais foram gastos com a reposição de apenas seis portas de vidro nos últimos três meses

Sem a limpeza adequada, cobertura de algumas estações ficam marcadas pela sujeira que sai do carburador dos ônubus
Sem a limpeza adequada, coberturas de algumas estações ficam marcadas pela sujeira que sai do carburador dos BRTs

De Olho no Trânsito - JC

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