sexta-feira, 25 de março de 2016

Ainda sobre a Avenida Conde da Boa Vista… O desabafo de um urbanista

Degradação tomou conta da Avenida Conde da Boa Vista há pelo menos seis anos. Foto: Ricardo Labastier/JC Imagem

Degradação tomou conta da Avenida Conde da Boa Vista há pelo menos seis anos. Foto: Ricardo Labastier/JC Imagem

O texto abaixo me foi enviado por email pelo arquiteto e urbanista Geraldo Marinho, professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), com atuação na área de planejamento e gestão urbana. Ele comenta a reportagem Esperança para a Avenida Conde da Boa Vista, publicada no Blog De Olho no Trânsito e no Jornal do Commercio desta quinta-feira (24/3), e que trata de uma nova pesquisa para acomodar o BRT no corredor. No texto, o urbanista elogia o fato de a pesquisa está sendo desenvolvida por gente séria, mas pondera que, enquanto a via for pensada e tratada apenas como um corredor de transporte, os erros se sucederão.
Resolvi publicar o texto na íntegra, com a permissão de Geraldo Marinho, é claro, por entender que ele se basta e gera reflexão sobre o futuro da avenida que é um dos maiores símbolos do Recife. Leia e reflita:

“Oi Roberta,
Parabéns pela capa do Caderno Cidades. O tema é relevante e encontrar uma solução é tarefa urgente.
Mas infelizmente não me sinto muito confiante, como profissional do urbanismo. Conforta saber que o reconhecido prof. Maurício Pina está envolvido, mas a tônica do novo projeto pode ainda estar muito presa à questão dos “estudos de demanda”. Resolver operacionalmente o corredor de transportes já representaria um bom salto qualitativo, mas isso talvez não alcance a complexa dimensão urbanística que envolve a Conde da Boa Vista e também a Guararapes, como lugares de forte referência simbólica para o Recife.
Esses espaços merecem muito mais que um projeto de sistema de transporte público. O exemplo das estações do BRT na Guararapes é desastroso e nitidamente afronta o sítio histórico legalmente protegido, além de se constituir num obstáculo que só contribui para a desintegração do lugar. Na Conde da Boa Vista o projeto pode ter sido feito sem respeitar a escala da avenida, e parece que nada cabia ali. O resultado comprometeu as premissas operacionais do BRT e só contribuiu para agravar a degradação do lugar.

Denver, no Colorado (EUA), é um exemplo citado pelo urbanista como referência para o futuro da Conde da Boa Vista. Foto: Google
Denver, no Colorado (EUA), é um exemplo citado pelo urbanista como referência para o futuro da Conde da Boa Vista. Foto: Google

O conjunto Guararapes-Conde da Boa Vista precisa ser pensado como locus singular que é, como um “lugar”, no sentido mais complexo, simbólico e antropológico do termo. É um espaço que objetivamente concentra pessoas e atividades, mas tem um valor cultural que exige uma abordagem ampliada e sensível na intervenção urbanística.
O fato do estudo estar sendo conduzido pela Secretaria Estadual das Cidades faz sentido na ótica estritamente institucional, porque a ela está ligado o Consórcio Metropolitano. Mas qual o grau de diálogo e interação com a Prefeitura do Recife? Ela é a principal responsável por assuntos de interesse local, como reza a Constituição. O Instituto Pelópidas Silveira é hoje responsável pela visão mais global do planejamento urbano da cidade. Está elaborando o Plano de Mobilidade e tem em sua agenda a questão das áreas centrais. Supervisiona um importante projeto sobre o Centro Continental do Recife, em elaboração pela Universidade Católica de Pernambuco (Projeto Centro Cidadão). Em que medida esses atores estão interagindo na resolução da Av. Conde da Boa Vista?
Espero que sua reportagem seja a primeira de uma série.

Denver1

Lembrei do exemplo de Denver, Colorado, EUA. Exemplos de países ricos são ingratos porque as diferenças são óbvias, mas não deixam de ser boas referências como projeto, estratégia e modelo de gestão.
Em Denver, a Rua 16 foi transformada em via pedestrianizada nos anos 1980 – de forma semelhante ao que tivemos na nossa área central no mesmo período. Continua funcionando como um shopping a céu aberto e tem uma linha própria de ônibus que circula só na rua, com veículos elétricos e com acesso gratuito. Os ônibus circulam lentamente em faixa estreita e compartilhando um grande calçadão onde transitam pedestres. Há fácil integração com a rede de ônibus e VLT, além de ter proximidade com uma estação de trens.
Descontadas as grandes diferenças, vale a pena refletir sobre o projeto e a forma como é tratado o ambiente urbano, bem integrado com a dinâmica comercial do lugar. Por que não pensar a Conde da Boa Vista como um grande passeio público por onde passa, delicadamente, uma linha de transporte especial?
Mas há muitos outro projetos, com seus erros e acertos, que podem ser tomados em consideração. Podemos aprender com isso e precisamos eleger o que é prioridade para nossa cidade. E, para este lugar, talvez nem se devesse pensar em BRT.
Um abraço
Geraldo Marinho”

De Olho no Trânsito - JC

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