quarta-feira, 16 de março de 2016

Memória-conhecimento da cultura judaica em Pernambuco

Divulgação
A Assembleia Geral das Nações Unidas instituiu o dia de 27 de Janeiro como o Dia Mundial da Lembrança do Holocausto. A data é uma homenagem aos seis milhões de judeus, vítimas dos programas de extermínio. Foi em 1945 que as tropas soviéticas libertaram o campo de concentração de Auschwitz-Birkenau, na Polonia.

Superação. Todavia, nessa data devemos incluir em nossas lembranças outras vítimas do holocausto, além de judeus. Também, negros, ciganos, homossexuais, e todos os que não cabiam nas medidas da pretendida “eugenia racial ou religiosa” defendida e executada pelo nazismo e pela Inquisição na Espanha e em Portugal. Não é fácil expressar sentimentos e falar sobre aqueles tempos de “estranhos deuses” que justificavam a intolerância a todas as etnias e grupos sociais apenas por serem “diferentes”.


Visão de Futuro. Sobre esse assunto venho refletindo bastante sobre um conceito que está intimamente ligado às questões de intolerância. É o conceito de ressentimento e suas relações com a história e com a memória. E qual a relação entre eles? Pensando bem, ressentimento envolve pensamentos de rancores, desejos de vinganças, fantasmas de morte. Os fatos causadores estão situados nas partes sombrias e tristes da história e se instalam nas memórias e nas lembranças das pessoas. Normalmente são provocados por conflitos nas esferas políticas e religiosas. E aí estão as relações entre ressentimento, história e memória.


Será que podemos imaginar como fica a memória e a lembrança dos descendentes dos seis milhões de judeus e outras centenas de grupos que perderam suas vidas apenas por serem “diferentes”? E os ressentimentos dos que constataram que suas raízes familiares estão no passado não tão distante dos temíveis tempos da Inquisição no Brasil e buscam o retorno a sua cultura anterior?


O resultado das minhas reflexões sobre esse assunto me estimulou a desenvolver ações favoráveis à transformação de ressentimentos em “atitudes afirmativas” através do conhecimento. Não defendo a tolerância, pois ela sugere uma hierarquia na qual os “melhores” toleram os “outros”. Pressupõe uma situação de desigualdade. Ou seja, alguém se coloca como modelo, pois se julga mais civilizado, de uma cultura superior e toma alguma atitude de benevolência em relação a outro julgado menor.


Alio-me aos que oferecem a memória-conhecimento como suporte documental para as narrativas históricas. Através do conhecimento sobre este “outro”, provavelmente as fronteiras marcadas pela discriminação e intolerância perdem seus limites. As diferenças entre os grupos étnicos e sociais tornam-se permeáveis à ideia da convivência possível entre culturas.


Por fim, na preponderância da diversidade da cultura brasileira está o caminho para a construção de pontes entre homens e entre mundos distantes no tempo e no espaço. No Arquivo Histórico Judaico de Pernambuco de 1992 até 2015, entreguei-me ao desafio de oferecer conhecimento sobre acontecimentos ligados à cultura judaica que permitisse a construção de pontes entre as diversas culturas. Agora, é preciso compartilhar a memória-história da cultura judaica em Pernambuco com a memória das demais culturas que trazem para os pernambucanos uma singularidade, justamente pelo mosaico étnico, social, religioso e cultural.


*Por Tânia Neumann Kaufman, mestre em antropologia e doutora em história (UFPE)

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