quarta-feira, 2 de março de 2016

Moradores esperam as mudanças com a transposição do Rio São Francisco

População que vive ao longo do canal da transposição do Rio São Francisco ainda espera se beneficiar do abastecimento



Ivanir Oilda de Moura acredita que, com água em casa da transposição, tudo vai melhorar poiterra é rica para o plantio. Foto: Ricardo Fernandes/DP

No Nordeste, falar em igualdade de direitos é colocar a água no topo da lista. A região é calejada de repetir histórias tristes de seca. Mas o jogo aparentemente pode virar. De hoje até a próxima sexta-feira, o Diario conta a história de quem vive à beira dos canais do projeto bilionário da transposição do Rio São Franscisco. No começo, no meio e no fim do traçado da obra em Pernambuco.

São homens e mulheres dentro de um recorte de 78 mil pessoas que moram em comunidades que assistem de perto à obra avançar, parar, avançar, parar, vazar… Nos mais de 200 quilômetros percorridos, um cenário de desesperança começa a dar sinais positivos, mas logo se esvazia. São apenas uma parte dos milhões de nordestinos que enfrentam o semiárido todo os dias. A água avança, mas a estrutura não resiste. Quando a água chega, é proibida. Tudo atrapalha no processo de desestabilizar a crosta de ceticismo dessas pessoas. A pergunta de todas elas batiza esta série: “E a água chega quando?”.

Seguindo na rodovia BR-316, em Floresta, no Sertão de Pernambuco, entramos em um acesso com único sentido: a transposição do Rio São Francisco, no começo da construção em Pernambuco. Cruzamos uma vila e seguimos cortando terra até chegar à beira do canal, onde a obra acontece e começa a dar sinais de realidade com os primeiros quilômetros recebendo água do Velho Chico. Lá, o assentamento Curralinho dos Angicos aparenta ser um mundo paralelo. As casas estão do lado do projeto bilionário que promete segurança hídrica para 12 milhões de pessoas do semiárido nordestino, inclusive para elas. Já enxergam a água que começa a correr e encher as primeiras barragens, mas nem sonham como vão ser beneficiadas.

A reportagem bate na casa do seu Anselmo de Souza Leal, 46 anos. Ele nos recebe ao portão já protegendo os olhos do sol e antecipa morar com sua mulher “doente”, dona Ivanir Oilda de Moura, de 42 anos.
– E água, seu Anselmo, como é? – adianto o assunto.
– Água aqui é ruim e mais ainda com a mulher operada…
A água da casa é de um poço que chega por um carro-pipa, “uns dias solta pras casas de cima, depois pras de baixo. Só dá pra beber e cozinhar. Dura uns dias só”, resume. Quando precisa, compra um caminhão de água. “Ela precisa muito, por causa dos curativos. Aí a gente paga R$ 60 e eles colocam do canal da transposição”.

Ele nem sabe, mas usa água proibida para consumo humano. O projeto que integra o Rio São Francisco ao Semiárido nordestino tem mais de 80% de conclusão e já acumula água nos primeiros 32,4 quilômetros do Eixo Leste, em Floresta, às vistas do seu Anselmo. Mas poder usar a água é outra história. O que ele também não sabe é que há a promessa de a água chegar na sua casa, porque faz parte do “pequeno grupo” de 78 mil pessoas que vive em comunidades e assentamentos no raio de cinco quilômetros de todo o canal, nos dois Eixos, que serão beneficiadas por redes conectoras de abastecimento partindo da obra. Vai pagar por ela, mas não hoje.

Segundo Anselmo, o pagamento é pelo serviço do caminhão, não da água. “É mais barato do que vir de Petrolândia cheio, que é R$ 150. Aí ele vem vazio e pega daí”, explica. “O complemento é para lavar roupa, prato, tomar banho… compro um mês sim outro não, que é só quando precisa mesmo. Aqui é seca grande”, diz. A renda da família é de um salário mínimo,  do auxílio doença de Ivanir, além dos bicos de seu Anselmo, R$ 40 por dia, quando tem. No dia da nossa visita, por exemplo, não tinha.

– O senhor planta? Isso é palma?
– É o que segura com essa seca. Mas também planto milho, feijão…
– Com chuva – interrompe dona Ivanir, se apresentando. E emenda: “a gente planta tudo: macaxeira, batata, até melancia dá nessa terra aqui. Mas só se tiver água”, garante.

“Nosso problema aqui é água. A terra é rica. O que quiser plantar vai pra frente”, reforça. Ivanir afirma que o que sabe é que a transposição vai chegar. No quintal, a cisterna construída em junho de 2014 está seca. “Hoje ela enche com carro-pipa que a gente compra”, diz. “Mas a água da barragem é mais ou menos. A gente ferve, coloca água sanitária e filtra. Melhor do que nada”.
Segundo o Ministério da Integração Nacional, responsável pela obra, não há autorização para que a água seja retirada. Há placas de proibição por toda a construção. O cronograma prevê a liberação do uso a partir de 2017, a ser administrada pelos estados.



Foto: Annaclarice Almeida/DP

Saiba mais

Dados da obra


Atendimento:
12 milhões de pessoas
do semiárido nordestino

390 municípios:
Estados do Ceará, Paraíba, Rio Grande do Norte e Pernambuco

Projeto composto com 477 quilômetros de extensão, sendo:

Eixo norte

260 quilômetros – 83,82% concluído

Água chega a 240 metros de altura em relação ao nível do São Francisco

Eixo leste

217 quilômetros – 81% conluído

Água chega a 198 metros de altura em relação ao nível do São Francisco

10 mil trabalhadores atuamente no projeto

Custo

2010 – R$ 4,5 bilhões
2012 – Revisão para R$ 6,7 bilhões
2014 – Revisão para os atuais R$ 8,2 bilhões 


Por: André Clemente - Diario de Pernambuco

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