segunda-feira, 21 de março de 2016

"Vivemos numa sociedade que elege ditaduras democraticamente", diz Luis Díe Olmos

Em passagem pelo Recife para proferir palestra no encontro da Federação Internacional das Universidades Católicas, o acadêmico fez críticas duras à forma atual de participação dos eleitores no processo de escolha de seus representantes


A política tradicional está com os dias contados. A previsão é do doutor em sociologia e professor da Universidade Católica de Valência, na Espanha, Luis Díe Olmos, que aposta na maior participação da sociedade e de movimentos sociais em partidos políticos. Em passagem pelo Recife para proferir palestra no encontro da Federação Internacional das Universidades Católicas, o acadêmico fez críticas duras à forma atual de participação dos eleitores no processo de escolha de seus representantes. “Vivemos em ditaduras eleitas democraticamente, que têm a participação dos eleitores apenas no ato de depositar o voto”, disse, ao defender o conceito de democracia real, cuja essência é a participação constante dos cidadãos no poder independentemente do processo eleitoral. Em entrevista ao Diario, Luís Díe Olmos também aborda a questão da crise política na Espanha, o surgimento de novos partidos em seu país e lança uma tese: a de que a crise econômica iniciada nos Estados Unidos, em 2007, fruto da “bolha imobiliária”, começou na verdade pela falta de controle e de proteção de todos os seres humanos por parte do Estado. “O poder financeiro tem a capacidade para iludir todo o sistema de controle. O mercado não conseguiu esconder a realidade econômica e deu impulso aos movimentos de contestação”

O que é democracia real? De onde surgiu esse conceito?
A democracia real surge diretamente da rua, dos movimentos sociais em contraposição aos interesses econômicos, que provocam a crise econômica internacional que começa em 2007, nos Estados Unidos, e se estende rapidamente a todo o mundo ocidental. Os movimentos sociais, de contestação, de enfrentamento, têm seus interesses e lutam contra a política tradicional e pedem um novo modelo. O velho modelo da democracia formal consiste no ‘eu sou cidadão’ e eu posso participar politicamente apenas no momento em que eu deposito meu voto na urna, de quatro em quatro anos, ou de dois em dois anos, como no Brasil. Os movimentos sociais começaram a reclamar deste modelo e a interferir para pedir voz nas ações que afetam a todos em qualquer momento. A democracia real permite uma participação constante da população em regimes democráticos. Do ponto de vista da teoria política, há problemas muito graves dentro dessa orientação da democracia real. Eu penso que nem sempre, no entanto, pode haver a participação de todos. Mas eu creio que existem possibilidades.

No Brasil, por conta da grande dimensão territorial, a implantação da democracia real seria mais difícil?
No Brasil, há exemplos dessas discussões em torno da democracia real como o Fórum de Porto Alegre e todos os processos de participação de decisões políticas locais. Aqui está sendo aplicada em alguma escala. É um conceito em construção. Ainda não está delimitado se falamos individualmente ou por grupos, ou por comunidades, ou redes. Porém, a ideia de democracia real é muito clara. O cidadão participa em todo o momento no poder de decisão e não apenas na hora de depositar seu voto na urna.

O movimento separatista da Catalunha é um exemplo de aplicação da democracia real na Espanha?
Há uma parte da comunidade catalã que deseja a comunidade autônoma, que reclama a independência da Espanha. Mas outra parte dessa comunidade não concorda. Então, há um impasse permanente. Na verdade, lá o maior problema é a questão de identidade: se pertencem ou não ao mesmo estado da Catalunha. A identidade é uma questão permanente. Se nós resolvermos os nossos problemas de identidade, poderemos dialogar e resolver outras questões. Assim pode existir uma estabilidade e dentro da qual a participação seria muito maior que a democracia formal nos permite. Assim, nessa questão de identidade, também há um choque com uma democracia que pede apenas o voto do eleitor a cada quatro anos, na Espanha, e a cada seis, no México. Anulam meus direitos de cidadão a cada eleição. A questão separatista é um problema de identidade, mas implica na mudança da democracia tradicional para a real.

A democracia atual então exclui o povo, que não se sente representado?
É como se vivêssemos em uma ditadura eleita nas urnas. É preciso ter cuidado, mas é como se uma ditadura fosse eleita a cada quatro anos democraticamente, sem a participação das pessoas ou de entidades nesse intervalo de tempo. Na cultura ocidental, foi implantado e aceito esse modelo de política que só agora vem sendo colocado em xeque. A democracia real é o contrário de todo esse velho modelo. Ela é participativa, tem um marco de estabilidade, reivindica e não quer uma ditadura eleita a cada quatro anos. Isso é perfeitamente legítimo e eu concordo.

Na sua avaliação, foi a consciência cidadã que deu origem à crise econômica nos Estados Unidos, em 2007. Em contraponto a isso, se atribui à “bolha imobiliária”, de caráter econômico. Qual a diferença dessas teses?
A bolha imobiliária é uma realidade. Segundo Paul Krugman (Nobel de Economia de 2008), a bolha imobiliária foi a última das crises. Houve outras, mas não foram de especulação financeira. As bolhas e outras bolhas são possíveis pela desregulação e o descontrole, especialmente, a especulação financeira. O poder financeiro tem a capacidade para iludir todo o sistema de controle. É como se os direitos humanos, a legislação de cada país, não pudessem ser aplicados em contraponto à especulação financeira. Essa é a tradução clara da origem da bolha imobiliária. Primeiro, houve uma descrença da população com o Estado, depois, veio a crise financeira. O mercado não conseguiu esconder a realidade econômica e deu impulso aos movimentos de contestação.

O Brasil passa por uma crise econômica e política. E a crise econômica veio antes da política. Então, podemos dizer que a consciência cidadã no Brasil também chegou nesses moldes?
Estamos vivendo numa época de maior conscientização em todo o mundo. Desde os movimentos sociais até os blocos culturais. Os movimentos sociais inclusive, em um primeiro momento, no Norte da África, no mundo muçulmano. A Primavera Árabe é um exemplo. É a manifestação democrática desse conceito de democracia real. Surge lá em primeiro lugar e depois surgem outros movimentos. Surgiram na Espanha, no México, Estados Unidos e Canadá. Também há exemplos de movimentos sociais na Índia, com a igualdade da mulher, e na China, pela falta de liberdade política. Tem que pensar que, na segunda metade do século 20, em muitos países, se apostou em um investimento de maior nível cultural, um maior nível de estudos para suas populações. Um desses exemplo é a ascensão das classes populares e médias no Brasil e o aumento das classes médias em nível mundial. A educação básica também é muito importante porque favorece a formação das pessoas. Você não pode esperar depois que essas pessoas continuem ignorantes, passivas, submetidas. A formação sempre vai significar capacidade crítica. A capacidade de pensar por si mesmo. Assim, as pessoas já podem almejar acordos pensando nelas mesmas e no coletivo. Conforme o aumento do nível cultural e de formação das pessoas em nível mundial, é mais difícil as manipulações clássicas ocorrerem. Essas pessoas já podem propor novas formas de fazer política distintas do que os políticos tradicionais querem vender. O diálogo, a negociação, o ponto de vista do outro. Na Espanha, temos um problema muito sério agora porque não formamos governo. Saíram das eleições quatro forças políticas, que é muito difícil, mas não digo que é impossível, que façam um acordo. O poder do partido conservador (Partido Popular, de centro direita) está incapacitado. Todos os demais não querem nada com essa força política. Há outro partido de centro direita, de nova formação, que surgiu dessa maior consciência cidadã que chama Cidadãos. E não quer nada com o Partido Popular. Por que? O Partido Popular está assolado pela corrupção. Os níveis de corrupção desse partido são assombrosos e os novos partidos surgiram justamente com a mobilização da população que buscou novos modelos.

Podemos afirmar que existe uma tolerância maior à corrupção em culturas latinas em comparação com as culturas anglo-saxônicas e germânicas?
Não estou de acordo. Você pode procurar na imprensa, em bibliotecas, está publicado: uma das eleições do ex-presidente norte-americano George Bush foi fraudulenta, foi fraude eleitoral que chegou ao Supremo Tribunal dos Estados Unidos (Suprema Corte Americana), uma instância séria. Estamos falando em um país em que votos são sagrados. Uma fraude eleitoral é tocar em algo muito sério nos Estados Unidos. O assunto foi resolvido na Suprema Corte por parte de uma pessoa que era da família dos Bush. Isso não é cultura latina e é de um nível de corrupção política alto. Até os periódicos (jornais) conservadores dos Estados Unidos se levantaram contra essa insensatez, essa impunidade. A corrupção é um problema relacionado ao poder em qualquer parte do mundo. O uso do poder. Há problemas nos líderes, mas isso não quer dizer que todos os políticos sejam corruptos. Eu não acredito nisso, nem aqui, nem na Espanha, nem nos Estados Unidos. O que eu digo é que os modelos de liderar favorecem a corrupção. Como eu chego ao poder? Como eu alcanço determinado conhecimento social? Porque se eu chego com a faca no pescoço contra meu próprio partido, esse sistema favorece a corrupção porque está pedindo para que eu me desumanize para chegar a uma posição de liderança. Essa maneira de liderar exige aparência de perfeição. Eu tenho que parecer que eu sou impecável, que eu sou perfeito. Esse é o caminho para não admitir nenhuma crítica nem dentro de meu partido, nem fora dele. São sistemas totalitários. Eu tenho que controlar a imprensa para não ter nenhuma crítica, eu tenho que controlar a universidade para que os pesquisadores não publiquem nada contrário. A imagem é um marketing, é uma propaganda, não é real. Eu conheço políticos que não fazem coisas reais e estão muito bem. Eles saem bem nas fotos e achamos que estamos bem, bem orgulhosos. Isso, no entanto, me parece mais um insulto quando eles aparecem nas fotos mas não fazem benfeitorias, promovem delitos. Vivemos em um jogo de aparências. E é por isso que os movimentos sociais desqualificam a política tradicional. A Espanha tem dois partidos, o Partido Popular e o Partido Socialista, e havia uma troca desses dois partidos há muito tempo. Mas os dois têm casos de corrupção e estão desqualificados para parte importante do povo. Os jovens não se reconhecem nesses partidos. Surgiram dois partidos equivalentes do ponto de vista ideológico: centro direita, os Cidadãos, e o de esquerda, Podemos.

Por: Diario de Pernambuco

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