quinta-feira, 14 de abril de 2016

Casa de Manuel Bandeira à venda no Recife

Projeto para tornar imóvel um centro cultural não avançou, segundo Secretaria de Cultura e Fundarpe

                                                                               
Silvana Menezes declama Bandeira

Cento e trinta anos depois, as memórias do poeta Manuel Bandeira parecem deixadas de lado no Recife, terra pela qual nunca escondeu sua paixão. A casa onde nasceu, em 19 de abril de 1886 no bairro das Graças, na Zona Norte, está fechada.
Após sofrer diversas descaracterizações, o imóvel agora foi colocado à venda. E a ideia de transformá-la em um centro cultural não conseguiu se consolidar nas mãos do poder público. Foi no pequeno sobrado, tendo como vizinho o Capibaribe, que o mestre da literatura deu os seus primeiros passos.
Embora faça parte da Zona Especial de Preservação do Patrimônio Histórico Cultural (ZEPH-4) a casa e todo o conjunto arquitetônico da área já sofreram mudanças. A diretora do departamento responsável, Lorena Veloso, explica que brechas na atual legislação ainda impedem um controle maior. “Ele não pode ser demolido ou submetido a qualquer tipo de reforma sem a autorização do município. No entanto, isso não impede que seus proprietários possam vendê-lo, alugá-lo ou executar qualquer tipo de atividade. Manter essa memória viva seria opcional”, explicou

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Felipe Ribeiro/Folha de Pernambuco
Imóvel no bairro das Graças, onde o poeta pernambucano nasceu: perda histórica

Procurada pela Folha de Pernambuco, a Secretaria Estadual de Cultura, assim como a Fundarpe, informaram não dispor de projeto ou investimentos alusivos à preservação da memória do poeta.
Na fachada do imóvel, uma placa traz a inscrição do “Último Poema”, um dos seus textos, versando sobre a beleza das flores e os diamantes mais límpidos. O pesquisador José Luiz Mota Menezes conta que na casa de Bandeira funcionava uma farta quitanda de frutas e verduras. Anos depois, escolas, clínicas e escritórios passaram a ocupar o lugar.
O restaurante Mafuá do Malungo, que remete a uma das publicações mais notórias do escritor, foi um dos mais marcantes. A reunião de poemas homenageia alguns dos seus grandes companheiros de estrada. “Sem projetos do poder público ou privado, nenhum tipo de museu foi criado. A tendência é de tudo desaparecer”, lamentou Menezes.



Flávio Japa/Folha de Pernambuco
"Sem projetos do poder público ou privado, a tendência é de tudo desaparecer" - José Luiz Mota Menezes, historiador

Perda

“Trata-se uma perda grande para Pernambuco. Bandeira era um verdadeiro artista, um homem sensível e com uma representatividade que ultrapassa barreiras. Ter mais um espaço dedicado a sua identidade seria de extrema importância para as futuras gerações”, afirmou Márcia Mendes, gestora do Espaço Pasárgada.
O casarão, na rua da União, na Boa Vista, é o registro da passagem do poeta pela Capital. Por lá, viveu parte da infância, dos seis aos dez anos. E também não faltam problemas. “Nossa estrutura física é bastante limitada. Temos apenas vinte títulos e algumas cartas escritas por ele para amigos. A casa tem problemas estruturais. E a proposta de criarmos um grande acervo digital ainda não se concretizou por falta de recursos”, explicou.
De 18 a 20 de Abril, o espaço Pasárgada, no Centro do Recife, promove a Semana Manuel Bandeira. O evento comemora os 130 anos do poeta e 30 anos de atividades da casa. A programação gratuita inclui palestras, exibição de curtas, encenações e o lançamento de um selo alusivo.

    Poeta e aventureiro


    Gentil e ríspido. Aplicado e desatento. Solitário e ao mesmo apaixonado pelas muitas mulheres de sua vida. As visões sobre o poeta Manuel Bandeira divergem e chamam a atenção para um homem à frente do seu tempo.
    Com fino espírito de observação, o professor e crítico literário embarcou em diversas empreitadas. Foi até mesmo jurado em concursos de misses. Ao longo dos 82 anos de vida, respirou a boemia carioca, mas nunca deixou de lado a alma pernambucana.
    Autor de três livros sobre a trajetória de Bandeira, André Cervinskis conta particularidades sobre o seu cotidiano. “Apesar de ter nascido abastado, com a família proprietária de engenhos de cana-de-açúcar, ele passou a conviver com muitas privações. Viveu por muito tempo dependendo do pensionato, administrado pelo pai”, disse. Conforme o pesquisador, o escritor também amargou muito preconceito. “Naquela época ter tuberculose era digno de pena, as pessoas queriam distância por medo do contágio, nenhuma oportunidade era dada”, acrescentou, lembrando que ele nunca se casou ou conseguiu trabalho fixo.
    Para ele, Bandeira não se mostrou preocupado em se adequar a tendências, mas sim em proferir de maneira clara as emoções que desejava transmitir por meio de suas criações. “Encurtava distâncias, atingindo a alma dos leitores, logo admiradores”, ressaltou. O poeta, que tem em sua árvore genealógica nomes como Gilberto Freyre e João Cabral de Melo Neto, deixou pelo menos 50 títulos.

    Marcílio Albuquerque, da Folha de Pernambuco

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