terça-feira, 5 de abril de 2016

Casarão centenário está abandonado na Várzea

Grupo formado principalmente por moradores resolveu limpar o local e criar uma horta orgânica




Bruno Campos/Folha de Pernambuco
Desde 2012, a Prefeitura planeja revitalizar a área e criar um mercado público para abrigar os ambulantes do entorno

Imóvel Especial de Preservação (IEP) desde maio do ano passado, um prédio de 110 anos e arquitetura rara está abandonado no bairro da Várzea, Zona Oeste do Recife. De estilo romântico, o chalé é o único com andares em toda a Cidade. Desde 2012, a Prefeitura planeja revitalizar a área e criar um mercado público para abrigar os ambulantes que cercam a construção.


Enquanto a reforma não acontece, um grupo formado principalmente por moradores da vizinhança resolveu limpar o local e criar uma horta orgânica pública. Para isso, um mutirão está marcado para o próximo sábado.

Como a maioria dos membros do movimento Salve o Casarão da Várzea, André Padilha tem uma relação afetiva antiga com o prédio. “Acho um absurdo o Estado em que ele se encontra. É preciso cuidar e é possível transformar o casarão. A praça em que ele fica tem uma efervescência cultural incrível, com blocos líricos, capoeira, coco e maracatu, por exemplo. Eles poderiam acontecer aqui”, sugeriu. “Ele é importante para a comunidade.” Das memórias, Padilha destaca quando assistiu à final da copa do mundo de 1994 no primeiro andar do casarão.


Bruno Campos/Folha de Pernambuco
Manoel Arruda aguarda a revitalização do espaço

O abandono do IEP pode ser verificado desde o portão. Faltam madeiras nas janelas, assim como o teto. Além do mato, há muito lixo entulhado no local. “Vários focos de Aedes aegypti em potencial são avistados por quem entra. A negligência é também um problema de saúde pública. A maioria dos ambulantes e vizinhos já foram atingidos pela chikungunya. A quantidade de ratos também é muito grande”, denuncia outro participante do movimento, Santiago Matos.
Após o muro, vende-se de quase tudo nas barracas. Há peixaria, barbearia e, claro, muitas frutas. O ambulante Manoel Arruda, 73, negocia com panelas e é um dos poucos que trabalha no local desde que o prefeito Jarbas Vasconcelos retirou as barracas da Praça da Várzea e as organizou na rua Azeredo Coutinho, em 1994.

    “Foram quatro prefeitos diferentes a nos prometer um mercado. A última promessa foi que o espaço seria entregue no segundo semestre de 2013. Seria ótimo, porque, do jeito que está, ficamos no meio da calçada, atrapalhando o tráfego de pedestres”, opinou.




    Bruno Campos/Folha de Pernambuco
    Enquanto a reforma não acontece, o mato predomina

    A Prefeitura do Recife informou que tomou posse do terreno em 2013 e que, há oito meses, uma licitação no valor de R$ 1,3 milhão foi concluída pelo Gabinete de Projetos Especiais. A primeira fase do trabalho é a construção do mercado e a segunda, a obra de restauro do casarão. Informou ainda que questões técnicas estão sendo avaliadas.

    SAIBA MAIS
    Um prédio raro - O Casarão da Várzea foi construído em 1905. O chalé romântico teve uso privado até o fim da década de 1950, quando passou a abrigar o Hospital Odontológico Magitot. A instituição foi a primeira da América do Sul quando começou a funcionar em um casarão na avenida Dezessete de Agosto, em Casa Forte, em 1944. O nome ainda está em uma placa presa à lateral do edifício. Foi uma homenagem ao médico francês Émile Magitot, estudioso das doenças bucais e necroses gengivais.
    O prédio abrigou o hospital até o fim da década de 1960. Desde então, ficou abandonado. Uma família começou a morar no quintal e servir como caseiros. Na década de 1990, foi cogitada para se tornar um IEP, mas o projeto foi abandonado - e o tombamento só ocorreu no ano passado. Em 2008, a Prefeitura ajudou a Fundarpe a criar um projeto que transformava o prédio em um centro cultural, mas também foi abandonado. Cinco anos depois, os caseiros foram despejados pela Prefeitura, que anunciou a intenção de utilizar o lugar.

    Paulo Trigueiro, da Folha de Pernambuco

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