sexta-feira, 15 de abril de 2016

Escalada em guerra de boatos inclui confisco e armas na Amazônia

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Image caption Grade na Esplanada dos Ministérios instalada para dividir manifestantes pró e contra Dilma; informações falsas divulgadas via aplicativos e pela internet reforçam polarização
Manhã de quarta-feira, dia 13. A professora universitária Letícia Ferreira estava em uma clínica estética em Botafogo, zona sul do Rio de Janeiro. Logo que ficou a sós com a atendente, veio a pergunta:
"É verdade que a poupança vai ser confiscada como na época do Collor?"
Segundo a professora, a moça "parecia realmente preocupada e sentindo alguma urgência em falar do assunto".
"Fiquei sem entender do que ela estava falando, e ela emendou com outra pergunta: se achava que era verdade que os supermercados iam parar, as lojas, tudo, se não houvesse impeachment, e que por isso deveríamos fazer estoque de alimentos", relata.
Questionada pela cliente sobre o motivo das preocupações, a esteticista disse que havia recebido um áudio pelo WhatsApp com esse teor.
"Fiquei impressionada – menos com o fato de haver um áudio circulando com esse teor, e mais com a preocupação e aparente crença dela no conteúdo", afirma Ferreira, que é doutora em antropologia social.
O episódio na clínica do Rio reflete um fenômeno que parece se acentuar na reta final para a votação do impeachment no Congresso: a guerra de boatos.
Áudios que circularam amplamente nesta semana no WhatsApp se encaixam na descrição feita pela esteticista.

Em um deles, em tom alarmista e pausado, um homem que se identifica como "major Duarte" e "diretor presidente do 'grupo G Bodan RJ'" aconselha ouvintes a "retirar todo o dinheiro do banco".
"Golpe de Estado. A Dilma vai passar a mão em todo o dinheiro da conta corrente e caderneta de poupança no dia 15. Já existe uma revolução em São Paulo em andamento. Vai ser instaurada uma guerra civil no nosso país. A informação é precisa, vem dos Estados Unidos. Levem a sério a informação que estou passando: tirem o dinheiro de suas contas correntes e cadernetas de poupança", diz o homem na mensagem.
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Image caption Em março de 1990, Zélia Cardoso de Mello, então ministra da Economia, anunciou confisco dos recursos da poupança dos brasileiros como medida de combate à inflação - mas isso não teve relação com impeachment de Collor
Informações que citam a suposta intenção do governo de confiscar recursos da população circulam há pelo menos dois anos, e já foram alvo de negativas veementes do Planalto.
O governo chegou a criar, em dezembro de 2015, um site chamado "Fatos & Boatos", para desmentir o que classifica como rumores sem fundamento.
"Uma legislação de 2001 proíbe qualquer medida para bloquear a poupança. Mesmo se o governo quisesse - e ele não quer, nunca quis e não o fará! -, não poderia tomar medidas para tirar o seu dinheiro”, diz um dos tópicos do site oficial, que inclui temas como "Dilma mandou colocar chip nas pessoas?" e "O Brasil caminha para uma ditadura comunista?"

Armas na Amazônia

Em áudio semelhante, também popular nos últimos dias, um homem que não se identifica também menciona um iminente confisco e uma guerra civil no país.
"Não consigo nem escrever o que está para acontecer dia 15 agora. Recebi três mensagens que não estão para brincadeira. (...) Dizendo que dia 15 agora Dilma está para pegar todo o dinheiro do banco dos brasileiros, igual Collor fez, e descobriram 20 mil armas na Floresta Amazônica, está para estourar uma guerra civil se a Dilma não sair", diz o áudio.

A mensagem cita ainda uma inexistente paralisação nacional de caminhoneiros. "É bom vocês guardarem bastante alimentos que está para estourar uma guerra civil dia 15. Ninguém compra e ninguém vai vender, não vai ter petróleo, nada. Vai estar tudo paralisado em prol de tirar a Dilma."
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Image caption Planalto criou site em 2015 para rebater informações falsas que circulam na internet
Para a professora Letícia Ferreira, a conversa na clínica mostrou a dimensão que a desinformação pode assumir na atual crise política.
"A impressão do episódio foi a de que, no jogo polarizado e na verborragia surda das redes sociais, estamos perdendo de vista uma imensa população que se informa por meios que muitos desconhecemos, talvez por corte de classe e escolaridade, e que vê um rumor ou áudio de WhatsApp absolutamente tosco como possível verdade", disse.

Contra o 'golpe'

A professora disse ter reforçado essa impressão após receber do pai, que é crítico ao governo e favorável ao impeachment, um panfleto que dizia que o impedimento da presidente é um "golpe" movido por pessoas que propõem o fim de garantias constitucionais.
O texto em questão afirma, entre outros pontos, que quem "conduz o golpe" defende ações como "o fim do SUS", "o fim do ensino público" e "o fim da CLT (Consolidação das Leis do Trabalho)".
O vice-presidente Michel Temer (PMDB), que assumiria o governo em caso de afastamento de Dilma, não fez declarações nesse sentido.
"Ou seja, era algo 'análogo' ao áudio que a moça da clínica recebera, mas 'do outro lado' da batalha", conta Ferreira.
Para ela, o episódio mostra ainda o "poder que estereótipos e discursos curtos e pouco reflexivos que estão circulando devem exercer sobre muitas famílias e casas".
De volta à conversa na clínica, Ferreira deu sua opinião à esteticista. Afirmou que a história de confisco "não tinha cabimento", que a ação de Collor havia sido parte de um plano econômico, e não de impeachment, e que o mercado não pararia em função da decisão do Congresso.
"Mas vi que estava discursando e que acabaria me posicionando demais, o que não ajudaria a minimizar o impacto do áudio que ela ouviu, e, sim, o oposto. Imaginei que ela logo me enquadraria em um dos lados em que tudo tem sido indexado atualmente, e parei de falar. Ela não falou mais no tema, e passamos a conversar sobre amenidades, apesar do elefante no meio da sala - ou do espacinho que estávamos dividindo", diz.


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