terça-feira, 26 de abril de 2016

Exército do bem

Além de iniciativas que combatem a pobreza no Brasil, a ActionAid mantém um importante projeto de turismo solidário: o Mão na Massa leva doadores para conhecerem a fundo as comunidades beneficiadas pela organização.

Por  Bruna Tiussu   
Fotos  Fabio Erdos

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O grupo de 11 pessoas era composto por gente dos mais variados lugares: Brasília, Rio de Janeiro, São Paulo, Natal, Sergipe e Minas Gerais. As idades, também distintas, iam da faixa dos 30 a dos 70 anos. Tinha aposentado, médica, advogado, farmacêutica e funcionário público. Alguns com muitos quilômetros rodados pelo mundo e pelo Brasil, outros nem tanto. Apesar das diferenças – e do fato de não se conhecerem –, estavam ali reunidos, em Januária, no Norte de Minas Gerais, por acreditarem em um sentimento em comum: o da solidariedade.

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Longe de ser um ponto turístico concorrido, a cidade foi o destino escolhido pela Ong ActionAid para acolher os 11 bravos integrantes do projeto Mão na Massa 2015. Em sua sexta edição, a iniciativa nasceu da necessidade de aproximar doadores e beneficiados. Ou seja, ao embarcar nessa aventura, quem apoia a organização vê de perto onde e como seu dinheiro está sendo investido, conhece uma das comunidade que ela ajuda e exerce, agora de maneira um tanto braçal, ainda mais a sua solidariedade – o nome do programa não é em vão: o roteiro inclui ações como o auxílio em hortas e plantações e mutirões para a construção de casas no povoado visitado.

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Para atuar na região de Januária, a ActionAid mantém uma parceria há dez anos com o Centro de Agricultura Alternativa do Norte de Minas (CAA) que, por sua vez, soma três décadas de trabalho ali. Juntos eles auxiliam famílias do semi-árido em quatro frentes principais: segurança alimentar, inserção das mulheres na produção, direto à terra e à educação. Dentre as comunidades atendidas pelas organizações está a do povo indígena Xakriabá, eleita para receber – e para colocar para trabalhar – os 11 integrantes do Mão na Massa.

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Localizada a uma hora de carro de Januária, a aldeia visitada tem 205 famílias e muitas, muitas crianças. Com o típico sorriso tímido, elas deram as boas-vindas ao grupo mostrando suas danças tradicionais, para então passar a palavra a Ilário, o líder local: “Mesmo antes de conhecê-los, já tínhamos uma gratidão enorme por vocês. É bom saber que tem gente preocupada com uma causa maior. Nosso planeta está chorando”, disse ele, antes de começar um tour contemplando os avanços conquistados graças a ajuda das organizações.

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A casa de medicina é hoje um dos espaços mais bem estruturados da aldeia. É ali que os indígenas produzem remédios a partir de sementes, flores e frutos, como a tintura de jatobá, ideal para cicatrização; o xarope de eucalipto, indicado para tosse e coriza; e o laxante natural de linhaça. Outra frente bastante assistida é a escola da aldeia, que desde 1996 oferece uma educação contextualizada, que insere princípios da cultura Xakriabá nos estudos. Paralelamente a este ensino, a ActionAid e o CAA acolhem os alunos no projeto Enlaçando Experiências, que visa fortalecer ainda mais a tradição local, de modo que eles cresçam com vontade de ali permanecer e prosperar.

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Após essa etapa mais contemplativa era hora de colocar a mão na massa. Ao chegarem no espaço multiúso da aldeia o grupo partiu para suas duas missões.
Primeiro, tiveram de concluir a construção de uma passarela que ligaria o pátio aos banheiros. Carriolas, cascalhos, pás, enxadas e muita força de vontade foram a receita para vencerem o comp romisso. Depois, o desafio foi organizar a casa da semente, uma espécie de banco utilizado por toda a  comunidade para aprimorar suas plantações. Enquanto uns debulhavam o milho, outros os selecionavam e os embalavam. Após algumas horas, calos nas mãos, muito suor e uma parede com prateleiras totalmente ocupadas por sementes.


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Ao final da tarefa, Rosana Gigo, de Sumaré, São Paulo, não havia perdido a elegância, apesar do cansaço. “Quem diria que eu viria até o Norte de Minas debulhar milho? Foi uma experiência bem legal e diferente. O povo é muito simpático”, disse ela, que colabora com a ActionAid há dois anos e fez sua estreia no Mão na Massa. Rose Aquino Silva, por sua vez, completava sua terceira participação no projeto. A carioca moradora de Brasília estava de férias, poderia ter escolhido viajar para qualquer parte do mundo, mas preferiu embarcar em mais uma edição da iniciativa. “Eu gosto deste tipo de turismo, de conhecer uma cultura mais a fundo. E até acho as tarefas propostas um pouco light. Eu poderia colocar mais a mão na massa fácil, fácil.” Fica a dica para a próxima saída projeto.

Azul 

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