sábado, 16 de abril de 2016

Pirataria No Recife, 91% compram produtos ilegais por serem mais baratos

Boa Viagem, Boa Vista, Casa Amarela, Casa Forte, Derby, Pina, Santo Antônio e São José são os bairros com maior concentração de mercadorias ilegais

Por: Augusto Freitas



Relógios, roupas e acessórios, calçados e bolsas são alguns dos itens falsificados mais procurados no Recife. Foto: Valter Campanato/ Agência Brasil

Que o Recife se tornou um paraíso para o comércio de produtos não-originais nos últimos anos não é nenhuma novidade. O consumo dos famosos “piratas” só aumenta. A razão? Preço bem mais baixo. Para 91% da população da capital pernambucana, o índice cresce diante de um segmento que se potencializa na medida em que o comércio legal sofre com a concorrência desleal e a arrecadação sente o baque.

O percentual é fruto de uma sondagem de opinião realizada pela pela Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de Pernambuco (Fecomércio-PE), por meio do Instituto Fecomércio-PE, em parceria com o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas no estado (Sebrae-PE), cujo estudo foi produzido pela Consultoria Econômica e Planejamento (Ceplan).

Os números são interessantes e, conforme a avaliação dos órgãos, mostram que a população não está preocupada com o origem dos produtos. Vejamos: para 31,3% dos entrevistados, a necessidade de obter a mercadoria independe da origem, ou seja, não importa onde ela foi fabricada e sim a chance de tê-la. Dentre os tipos mais vendidos ilicitamente, os destaque são as mídias gravadas (CDs, DVDs ou Blu-ray), com 75% das indicações, relógios (40,5%), roupas e acessórios (39,3%) e calçados e bolsas (34,5%).

No mapeamento feito pelos órgãos, é possível detectar os bairros onde se mais vende produtos piratas, falsificados, clandestinos, decorrentes de descaminho e fabricados irregularmente: Boa Viagem, Boa Vista, Casa Amarela, Casa Forte, Derby, Pina, Santo Antônio e São José.

“A pesquisa permitiu avaliar o perfil de quem compra estes tipos de produtos e é possível afirmar que estes bairros são os que mais concentram vendas de produtos ilegais. Além disso, observa-se uma concorrência bastante desleal em relação aos comerciantes devidamente regularizados, que cumprem a legislação tributária”, explicou Brena Castelo Branco, diretora-executiva do Instituto Fecomércio-PE e coordenadora da sondagem.

Mulheres lideram
Segundo as estatísticas do Instituto Comércio-PE e do Sebrae-PE, as mulheres recifenses compram mais produtos ilegais que os homens, cerca de 56% das entrevistadas. Elas preferem, conforme a apuração, roupas e acessórios (42,4%), relógios (41,1%, brinquedos (40,2%), calçados e bolsas (38,4%), óculos (35,7%), joias e bijuterias (32,6%), celulares (21,9%) e cosméticos e perfumes (20,1%).

Já os homens, que somaram 44% dos entrevistados assumindo comprar mercadorias ilegais, a preferência é distinta. Lazer, neste caso mídias gravadas, forma a preferência disparada: 81,8%. Depois, seguem suprimentos de informática (21,6%), pilhas e baterias (20,5%), programas de computador (9,7%), acessórios para veículos (8%), computadores e periféricos (7,4%), produtos de limpeza doméstica (7,4%), materiais de escritório (5,7%), artigos esportivos (17,6%), equipamentos eletrônicos de áudio e vídeo (10,8%) e cigarros e isqueiros (7,4%).

Os órgãos que realizaram a pesquisa não determinaram, no entanto, o impacto negativo na arrecadação do Recife, isto é, o quanto o município perde com a sonegação de tributos relacionados aos produtos. No entanto, é possível deduzir que o valor é astronômico, considerando números ao nível nacional. Segundo uma estimativa do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (IBRE/FGV) e do Instituto Brasileiro de Ética Concorrencial (ETCO), foi registrado um total de cerca de R$ 932 bilhões em 2015 com o comércio informal, equivalendo a 16,1% do Produto Interno Bruto (PIB).

Em uma sociedade que estimula o consumo e que os gastos das famílias com bens e serviços finais respondem por quase 70% do PIB, o comércio ilícito e ilegal ocupa um grande espaço no mercado. “É possível detectar que a população possui um instinto de consumo muito grande. Outras razões, além das que incluem os percentuais já citados, são a facilidade que alguns produtos chegam ao mercado antes dos originais, para 23,4% dos consumidores, e a semelhança e status que os ilegais proporcionam em relação aos legítimos, representando 23,5% dos entrevistados”, pontuou Brena.

Dentre os ouvidos, na avaliação dos órgãos, 67,3% entendem que mercado de venda de produtos ilegais aumenta as possibilidades de consumo e 40,3% acreditam que essa comercialização contribui para um equilíbrio de preços mais acessíveis no comércio formal. Considerando a crise atual, então, o universo “xing-ling” é uma válvula de escape, embora falsa, tanto para ter o produto como para vendê-lo.

“Há uma contradição muito forte entre os consumidores em relação aos pontos negativos e positivos. Ao mesmo tempo que afirmam comprar produtos ilegais para fortalecer as oportunidades de ter produtos, economizar no preço e elevar os índices de ocupação e renda, eles também apontam, como pontos negativos, os prejuízos aos fabricantes legais, a queda no faturamento e sonegação do setor e o desemprego, que estimula o crescimento de quem vende. O combate à pirataria parte, principalmente, pela educação financeira e os riscos que estes produtos causam”, aponta a diretora-executiva do Instituto Fecomércio-PE.

Celular e medicamentos
O levantamento do Instituto Fecomércio-PE também apontou dois dados relevantes entre a população que consome os produtos piratas. Os celulares, que até pouco tempo eram a vedete desse público consumidor, foram, acredite, os últimos colocados no ranking de preferência na hora da compra, com 16,8% citados. Ficou atrás de suprimentos de informática (18,3%), pilhas e baterias (18,5%), joias e bijuterias (20,8%), óculos (32%), brinquedos (32,8%), calçados e bolsas (34,5%), roupas e acessórios (39,3%), relógios (40,5%) e a líder absoluta, as mídias digitais (75,5%).

“A percepção é de que os telefones celulares adquiridos neste mercado informal perderam espaço, muito em função dos defeitos que apresentam, da falta de garantia e, também, dos preços, já que há mais facilidades nas lojas, como o parcelamento”, destacou Brena Castelo Branco. Faz sentido. Pelo estudo, 93,9% dos consumidores entrevistados disseram ter prejuízo financeiro e material com os “xing-lings”. No entanto, a internet, que de praxe se tornou uma maneira segura para a compra de produtos legais, é mais procurada também pelos falsos. Para 14,8% dos entrevistados, a web é o melhor canal para comprar as mercadorias, mesmo as piratas.

Mesmo com um índice cada vez maior de consumo no Brasil, os medicamentos, na capital pernambucana, passam longe de serem algo dos consumidores, considerando os legalmente liberados e com uso proibido no país. O item liderou o rol dos produtos que os recifenses não tem intenção de comprar, com 66,3%. A lista se completa com bebidas (48,5%), celulares (44,5%), computadores e periféricos (35,8%), cigarros e isqueiros (28%), cosméticos e perfumes (27,3%), eletrônicos de áudio e vídeo (25,8%), artigos para bebês (20,5%), óculos (16,5%) e calçados e bolsas (16,5%). “É bastante provável que façamos a sondagem anualmente, ainda mais considerando que com a crise econômica a tendência desse tipo de consumo é aumentar”, completou Brena.

Diario PE 

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