quarta-feira, 6 de abril de 2016

Recife mostra potencial no mercado com novas barbearias e serviços diferenciados

O ponto em comum entre o surgimento das empresas é que todas chegaram ou se adaptaram à demanda diante da crise, nos últimos três anos



Leonardo Benites, empresário paulista, criador e detentor da marca Confraria da Barba, diz que setor está em amplo crescimento. Foto: Confraria da Barba/Divulgação

Imagine aquele lugar onde você geralmente comenta algo da sua vida particular, conversa sobre o noticiário, opina sobre a novela do horário nobre, o cenário cultural, debate o futebol, política e religião (mesmo que não queira) e ainda sai mais feliz. Agora pense em tudo isso acompanhado de uma boa cerveja gelada, por exemplo. Pensou? Se você imaginou um bar, sem problemas. Seria natural, afinal nele é falado de tudo isso e mais um pouco, além de bebida.

O bar, nesta reportagem, não fica em segundo plano, e sim acompanhado um dos serviços que mais cresceu no Recife nos últimos três anos: as barbearias, que ainda trazem o glamour do passado mas agora ressurgem com uma proposta diferenciada de oferecer os melhores serviços de estética aos homens. Isso mesmo. Os homens estão se cuidando mais. Quer uma prova? Basta observar que a moda do momento é cultivar a barba. Rala, farta ou aparada, elas estão com tudo.

Na capital pernambucana, o segmento está a todo vapor. Atualmente, cerca de oito barbearias e salões de beleza que criaram espaços exclusivos para os homens disputam de forma sadia a preferência dos clientes. Tem estabelecimento comercial espalhado em toda a cidade: Boa Viagem, na Zona Sul, passando pelo Cordeiro, na Zona Oeste, e chegando à Zona Norte, em bairros como Aflitos, Graças, Espinheiro e Casa Forte, onde o nicho parece ser mais concorrido.

Umas das barbearias que vai aportar no Recife, provavelmente entre os meses de junho e julho, é a Confraria da Barba, cuja matriz fica em Campinas (SP), que será comandada, em forma de franquia, pelos empresários Thulio Guerra e Eduardo Maia. Guerra já é empreendedor no grupo de medicamentos, onda atua com uma distribuidora, mas resolveu investir cerca de R$ 600 mil na abertura da Confraria. Razões para expandir os negócios? Uma mudança de salão para fazer cabelo e barba em pleno casamento.

“Eu ia casar e queria casar de barba. Mas me mudei e precisei procurar outro salão. Com o tempo, pesquisei o mercado e observei cinco marcas que poderiam se tornar possíveis potenciais parceiras. Junto com meu sócio, realizamos uma pesquisa no Recife onde constatamos que 50% dos 200 entrevistados afirmaram nunca ter ido a uma barbearia. Escolhemos a Confraria da Barba por todo a proposta diferenciada de serviços”, explicou Guerra.

“'Sem cheiro de esmalte, sem papo de novela'. Esse é nosso slogan para traduzir a ideia da Confraria da Barba, um local onde o homem pode, além de cortar o cabelo e cuidar da barba, jogar um pôquer, ver um jogo de futebol e tomar uma boa cerveja gelada, entre outras diversões. É claro que as mulheres, sejam amigas, namoradas ou esposas, podem acompanhá-los, uma vez que lá elas também têm a oportunidade de conferir os demais serviços”, ressaltou Leonardo Benites, empresário paulista criador e detentor da marca Confraria da Barba.


A Trois Beauté é outra barbearia que surgiu no Recife, um ano atrás. Comandada pelos sócios e amigos Rafael Mesquita, Marcelo Wanderley Filho e Thiago Vieira, a casa conta com serviços de primeira linha para o público masculino, barba, cabelo e unhas de mãos e pés. “Os homens adquiriram o hábito de se cuidar mais, querem uma barba bem feita e higiênica. A demanda cresceu muito no Recife e vimos a chance de abrir o negócio”, contou Rafael Mesquita. Na Trois, os valores vão de R$ 40, para a barba, R$ 70, corte de cabelo, até R$ 200, um pacote completo de estética. Na Zona Sul, a Trois tem como concorrente a Garagem Barbaria, talvez a primeira que tenha chegado ao Recife nos últimos dois anos com a nova tendência de cuidados com a barba.

Um ponto em comum chama atenção neste crescimento do segmento de barbearias no Recife: os espaços exclusivos, sozinhos ou em salões de beleza tradicionais que cederam à proposta, surgiram num momento econômico desfavorável. Basta analisar os números do mercado. Dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE) e pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) apontaram que o volume do setor de serviços do Brasil fechou 2015 com queda de 3,6%, a maior da série histórica do indicador, inciada em 2012.


Quais seriam, então, os motivos pelos quais o ramo de barbearias permanece aquecido? “A demanda é alta, não tão igual à das mulheres, mas cresce. Os homens querem mais cuidados pessoais, o cultivo da barba virou moda atualmente. O potencial de mercado é muito grande”, apontou Maurício César Lima. Ao lado dos sócios Caio Remígio e Paulo Cavalcanti, ele está à frente da Oficina Cabrón, que abriu as portas há dois meses, em Casa Forte. Os empresários investiram cerca de R$ 60 mil para criar o espaço. Na Cabrón, os clientes podem, além de dar um up no visual, tomar uma cerveja artesanal e comprar roupas, derivados do tabaco, acessórios e produtos de cabelo.

A tendência da barba no mercado de serviços estéticos masculinos não é, pelo visto, coisa de momento. “Viajo bastante acompanhando as tendências em outros países. Após idas a Nova York e Portugal, conversamos e concluímos que seria interessante criar um espaço específico para os homens, uma típica barbearia dentro do salão. Víamos alguns clientes constrangidos em realizarem alguns serviços, como plástica dos fios, na frente das mulheres. Daí, criamos um espaço só deles”, afirmou Jacqueline Santos Caetano, proprietária do Sorelli Spa Urbano, nas Graças. No Sorelli, você paga R$ 30 pela manutenção da barba, R$ 50 pelo corte de cabelo e R$ 50 pela plástica dos fios.

De olho em um mercado de serviços do grupo masculino que cresce 10% ao ano, desde 2010, de acordo com dados da Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos (ABIHPEC), o Brasil está entre os três países que mais consomem cosméticos do segmento. Mais de 40% dos consumidores de produtos de beleza são homens e para esta parcela já foram movimentados e investidos mais de US$ 33 bilhões.

Segundo a associação, uma pesquisa recente realizada pela agência de publicidade internacional J. Walter Thompson, JWT, com mil homens nos Estados Unidos da América (EA) e Inglaterra mostrou que os cosméticos estão cada vez mais presentes na vida masculina: 54% usam produtos para os cuidados com a pele (hidratantes e cremes para os olhos), 33% depilam ou removem os pelos, 39% usam protetor para lábios, 29% fazem manicure, 24% investem em tratamentos faciais (incluindo aí a barba), 13% depilam a sobrancelha, 19% fazem bronzeamento artificial, 11% usam pós-bronzeadores, 10% aplicam corretivos e 9% usam base nas unhas.

Os números, por si só, confirmam a necessidade do aperfeiçoamento do profissional brasileiro em técnicas voltadas exclusivamente para este público. “O que ainda rende dinheiro neste setor específico são os cuidados das mulheres, mas o público masculino tem crescido sim. Tanto que já tínhamos uma barbearia no salão, reformamos todo o local e separamos 30 metros quadrados para a barbearia, que ainda conta com a oferta de rótulos diferentes de cerveja”, disse Tânia Magalhães, proprietária do Espaço 285, na Rua da Hora, Espinheiro. Lá, os serviços custam a partir de R$ 25 (barba) e R$ 40 (cabelo).

Zona Norte: disputa acirrada
A Zona Norte, inclusive, saiu na frente na corrida para abocanhar clientes no Recife. A reportagem do Diario constatou, após uma pesquisa, que das oito novas barbearias que surgiram ou foram reformadas na cidade, nos últimos dois anos, cinco estão nesta localidade. Dois meses atrás, a Rua do Espinheiro também ganhou uma nova barbearia, a Poderoso Chefão Barber Bar. Carlos Henrique Fraga de Souza, empresário à frente do estabelecimento, se inspirou em outro ponto para abrir o negócio.


Oficina Cabrón abriu as portas há dois meses, em Casa Forte, apostando na tendência masculina de cultivar a barba. Foto: Oficina Cabrón/Divulgação

“Morei durante dois anos na Califórnia, nos Estados Unidos, e trabalhei com barbearias lá. Voltei com a meta de abrir uma casa semelhante aqui no Recife, mas aliando outros serviços além da barba em si, como tatuagens, uma influência que trouxe da minha experiência fora do Brasil”, disse. Na Poderoso Chefão, que recebeu investimentos de R$ 25 mil, o cliente encontra valores de R$ 35 (barba e cabelo) e R$ 50, para a “barba americana”, que além de ser aparada ao gosto do cliente, recebe um cuidado especial de limpeza. No bar, há uma vasta carta de bebidas e cervejas com rótulos internacionais.

De acordo com o Serviço Brasileiro de Apoios às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), o negócio de barbearia pode apresentar extrema diversidade de alternativas, desde o atendimento informal domiciliar a sofisticados salões de luxo, passando pelo atendimento no próprio domicílio, pelos salões ditos “de bairro” ou de pequeno porte e toda uma gama de portes intermediários. Um exemplo desse nicho é a Barbearia Tradição, no Cordeiro, Zona Oeste do Recife. Lá, o cliente é tratado com toda a atenção que merece e ainda degusta petiscos e cervejas de variados rótulos. Além disso, contempla, em alguns casos, as opções apenas masculino ou unissex, sendo que este último incorporaria complementos que podem ser encontrados no perfil que trata de salão de beleza.

O órgão, inclusive, orienta os interessados em abrir uma atividade como esta. Dependendo da intenção, o perfil focará num salão pequeno, do tipo “de bairro”, sendo mais comum, com a existência de em torno de quatro cadeiras de barbeiro, sendo uma operada pelo proprietário e as outras por associados. Uma forma comum de operação, na avaliação do Sebrae, é a cessão da cadeira, instrumentos e materiais ao associado, que fica com 50% do que fatura e repassa os outros 50% ao proprietário.

Para o Sebrae, o negócio exige bom desempenho profissional, sintonizado com as tendências definidas pelos padrões de moda e beleza que, por vezes passam por reciclagens em relação às atividades convencionais da atividade. Cursos profissionalizantes, normalmente de nível técnico, são determinantes para o sucesso do negócio e surgem a cada dia, criando novos padrões de desempenho e especializando os serviços.

Por: Augusto Freitas
Por: Celso Ishigami - Diario de Pernambuco

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