domingo, 17 de abril de 2016

Tim Vickery: Oposição deve se afastar de quem vê comunismo em país que ainda tem elevador social e de serviço

Tim Vickery* 


Eduardo MartinoImage copyright Eduardo Martino

Há dois anos, fiz uma viagem para o Chile em que os destaques foram a beleza das montanhas em torno da capital, Santiago, e um encontro com uma conterrânea – Joan Jara, mais conhecida como viúva do músico Victor Jara, torturado e assassinado após o golpe de Pinochet em 1973.
Joan também tem luz própria – era uma dançarina conceituada e depois virou professora de dança. Me contou que voltou para o Chile com suas filhas dez anos depois do golpe, e percebeu que a geração formada no auge de Pinochet não tinha noção de trabalho em grupo: a ideologia do "cada um por si" triunfava total, em uma grande aula sobre o efeito que a política tem na vida cultural de um país.
Joan escreveu um lindo livro sobre o seu marido (em português, Canção Inacabada – A Vida e Obra de Victor Jara). Uma das conclusões finais, logo depois do golpe, é de uma mulher de uma favela destruída pelos militares, que comentou: "Não éramos capazes de odiar. Agora eles nos ensinaram o que isso significa".
Fiquei pensando bastante sobre essa frase nos últimos dias. Por um lado, não tem nada a ver com o Brasil de hoje. Por outro lado, tem muito.
A última eleição por aqui não foi um Allende x Pinochet. Nem perto disso. Falava-se de um país polarizado – mas entre polos aparentemente bem próximos. Tratava-se de um duelo entre duas visões social-democratas bastante parecidas.
No entanto, gerou uma quantidade de ódio que, desde então, só vem aumentando, com brigas entre amigos e parentes. Parece que o sentimento de ódio até contaminou alguns membros do Judiciário – uma vergonha que merece mais destaque. Como tentar entender isso?
Por um lado, tem uma grande dose de oportunismo. Parece que o PT ficou nas mãos de um tipo perigoso, o autodenominado "realista". Aprendeu como tocar o sistema e protagonizou o que se tornou o maior escândalo de corrupção do país. Quatro mandatos depois, o sistema quer vingança, e procura mastigar o PT, para depois o cuspir no rio como boi de piranha.

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Image caption Sentimento de ódio cresce no país, mas momento é de decisões delicadas, diz colunista
E os muitos dispostos a aplaudir? Uma parte da sociedade brasileira anda com uma indignação enraizada – e totalmente fundamentada – quanto às atividades da classe política.
Também houve a miopia de tom triunfal do PT durante os anos de boom. Criou-se uma expectativa surreal, já que o boom foi, acima de qualquer outra coisa, uma consequência de um cenário internacional favorável, em que o Brasil (mais uma vez) vendia matéria-prima.
Mas a China iria desacelerar em algum momento e, com um câmbio supervalorizado, o Brasil não foi capaz de se tornar mais expressivo em atividades de valor agregado. A natureza do boom era vulnerável, mas o discurso oficial vendia uma visão de uma potência nova, impossível de parar-se.
Claro, quando a conta chega, isso gera uma reação, uma decepção, um sentimento amargo de traição – e tudo isso se faz notar na temperatura das ruas.
Também tem os fantasistas de plantão, os desequilibrados que realmente enxergam um perigo de comunismo num país que mantém elevador social e de serviço. É engraçado pensar numa conspiração marxista-leninista em que um dos atores principais seja Marcelo Odebrecht, mas tal delírio existe nas mentes de alguns manifestantes.
Por que existe espaço para tal bobagem? Seria uma reação contra uma coisa positiva que aconteceu nos últimos anos – a sacudida, ainda que bem suave, na noção profunda de hierarquia que tem por aqui?
Fica difícil chegar a qualquer outra conclusão ao ver cartazes como "quero o meu país de volta!". Soa como um protesto contra o próprio progresso que o país tem feito – e uma oposição social-democrata responsável precisa repudiar e se afastar de um sentimento assim. E uma oposição responsável é fundamental nestes momentos, porque decisões podem ser tomadas hoje com duradouras consequências.
Há um outro exemplo do Cone Sul do continente. Mais uma vez, nem de longe se trata de um paralelo exato, mas, mesmo assim, traz os seus ensinamentos. Me refiro ao golpe de 1955 na Argentina, que derrubou o presidente Juan Domingo Perón.

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Image caption Estátua de Juan Domingo Perón em Buenos Aires; historiador Félix Luna descreve o clima polarização que reinava na época
O historiador argentino Félix Luna descreve o clima de ódio que reinava, e a polarização entre os a favor e os contra Perón. Luna fazia parte do segundo grupo, e deu apoio à chamada "revolução libertadora" que tirou Perón do poder. Décadas depois, admitiu seu equívoco.
Chamou o processo de "um fato negativo… (que) forçosamente abriu uma longa etapa de governos constitucionais frágeis e condicionados, e de regimes de fato invariavelmente fadados ao fracasso. Se não tivesse acontecido (o golpe) (…) é provável que seu mandato (de Perón) terminasse com a derrota eleitoral de seu partido. (…) (Mas) naquele momento a coisa aconteceu em termos de tudo ou nada e a metade do país que, como eu, celebrou a queda de Perón não pensou que nunca é positiva a derrubada de um governo constitucional".
  • *Tim Vickery é colunista da BBC Brasil e formado em História e Política pela Universidade de Warwick

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