quarta-feira, 11 de maio de 2016

A humanidade deve ser a opção suprema

Refugiados sírios sobrevivem em condições insuportáveis no acampamento de Idomeni, na fronteira da Grécia com a Macedônia. Foto: Dimitris Tosidi/Irin

Refugiados sírios sobrevivem em condições insuportáveis no acampamento de Idomeni, na fronteira da Grécia com a Macedônia. Foto: Dimitris Tosidi/Irin

Chegamos a um ponto sem retorno. O mundo é testemunha do maior grau de necessidade humanitária desde a Segunda Guerra Mundial. A catástrofe humana é de escala titânica.

Por Hervé Verhoosel, da IPS – 

Nações Unidas, 10/5/2016 – Aproximadamente, 125 milhões de pessoas têm uma extrema necessidade de ajuda, mais de 60 milhões estão deslocadas pela força e houve 218 milhões de vítimas de desastres naturais anualmente nos últimos 20 anos.
São necessários mais de US$ 20 bilhões para ajudar os 37 países atualmente afetados por desastres e conflitos armados. Se não forem tomadas medidas imediatas, 62% da população mundial poderia chegar a 2030 vivendo o que hoje se classifica como situações frágeis. Uma e outras vezes ouviram que nosso mundo está em um ponto de inflexão. Hoje estas palavras são mais certas do que nunca.
Começamos a compreender que nenhum de nós está imune às repercussões dos conflitos e dos desastres. Vemos em pessoa os refugiados das nações devastadas pela guerra, e somos testemunhas de primeira mão das consequências do aquecimento global. Vemos, vivemos e não podemos negar.
Esses são momentos de desespero. Com tanto em jogo, só temos uma opção: a humanidade. É hora de estarmos juntos e revertermos a tendência crescente das necessidades humanas. É hora de criar objetivos claros e viáveis de mudança, a serem aplicados nos próximos três anos, baseados em nossa humanidade em comum, o valor que une todos nós.

Hervé Verhoosel. Foto: Cortesia do autor
Hervé Verhoosel. Foto: Cortesia do autor
Por este motivo, o secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), Ban Ki-moon, convocou os governantes do planeta para a primeira Cúpula Humanitária Mundial (CHM), nos dias 23 e 24 deste mês, em Istambul, na Turquia, para acordar medidas que traçarão um mapa do caminho para a mudança real.
A CHM é o resultado de três anos de consultas com mais de 23 mil pessoas em 153 países.
Baseado no processo de consultas, o secretário-geral apresentou à CHM seu informe Uma Humanidade, Responsabilidade Compartilhada, que esboça uma visão clara para que os mandatários tomem medidas rápidas e coletivas para reforçar a coordenação da ajuda humanitária.
O informe, conhecido acertadamente como Agenda Para a Humanidade, propõe mudanças inovadoras no sistema humanitário, que ajudarão a reduzir o sofrimento, o risco e a vulnerabilidade do planeta.
A Agenda também está vinculada aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), que traçam metas específicas para o futuro e a saúde do nosso mundo. Imaginemos o fim da pobreza, da desigualdade e da guerra civil até 2030. É possível? Sim, sem dúvidas. Ban Ki-moon pediu que haja avanços mensuráveis nos três anos posteriores à CHM.
A Cúpula não será o ponto final, mas o pontapé inicial para fazer uma verdadeira diferença nas vidas de milhões de mulheres, homens e crianças. É uma oportunidade sem precedentes para que os líderes do planeta mobilizem a vontade política para abordar alguns dos problemas mais angustiantes de nosso tempo.
A Agenda especifica cinco responsabilidades que a comunidade internacional deve assumir se esperamos acabar com nossas crises humanitárias compartilhadas. Uma vez aplicadas, a mudança será inevitável.
  1. Prevenir e acabar com os conflitos. Os líderes políticos – inclusive o Conselho de Segurança da ONU – devem não só administrar as crises, mas também preveni-las. Devem analisar os riscos e utilizar todos os meios políticos e econômicos necessários para impedir as guerras e encontrar soluções, em colaboração com os jovens, as mulheres e os grupos religiosos, entre outras comunidades.A CHM representa uma oportunidade única para obter o compromisso dos líderes para promover e investir na prevenção e na mediação dos conflitos, que geram 80% das necessidades humanitárias.
  2. Respeito às leis da guerra. A maioria dos Estados assinou as leis internacionais humanitárias e de direitos humanos, mas, lamentavelmente, poucas são respeitadas ou supervisionadas. Se os infratores não são responsabilizados cada vez que violam as leis, os civis continuarão sendo o grosso dos mortos em um conflito, aproximadamente 90%.A CHM será um fórum para que os líderes promovam a proteção dos civis e o respeito aos direitos humanos básicos.
  3. Que ninguém seja excluído. Imagine que você é deslocado de sua casa, apátrida ou atacado por sua raça, religião ou nacionalidade. Agora, imagine que foram adotadas políticas de desenvolvimento para os mais pobres do mundo, que os mandatários trabalham para reduzir o deslocamento, que as mulheres e as meninas são empoderadas e protegidas e que todas as crianças – seja em zonas de conflito ou não – frequentem a escola.Imagine um mundo que se negue a excluí-lo. Essa poderia ser nossa realidade.Na CHM, o secretário-geral pedirá aos líderes mundiais que se comprometam a reduzir os deslocamentos internos em 50% antes de 2030.
  4. Trabalhar de maneira diferente para acabar com a necessidade. Embora os desastres naturais costumeiramente nos pegam de surpresa, muitas crises são previsíveis. É hora de se comprometer para colaborar estreitamente com os sistemas locais e os sócios de desenvolvimento para atender as necessidades básicas das comunidades em situação de risco e ajudá-las a se preparar e serem menos vulneráveis. Falta maior recopilação de dados sobre o risco de crises e um chamado para atuar rapidamente a fim de reduzir o risco e a vulnerabilidade em escala mundial.A CHM proporcionará a plataforma necessária para que se assuma o compromisso com novas formas de colaboração por um objetivo comum: a humanidade.
  5. Investir na humanidade. Se realmente queremos atuar com respeito à nossa responsabilidade com as pessoas vulneráveis, devemos investir nelas política e financeiramente, mediante o apoio de metas coletivas, em lugar de projetos individuais. Isso significa aumentar os fundos não só para a resposta, mas também para os esforços de preparação para as crises, a consolidação da paz e da mediação.Também significa ser mais criativo sobre como financiar as organizações não governamentais nacionais – com ajuda de empréstimos, doações, bônus e sistemas de seguros, além de trabalhar com os bancos de investimento, as empresas de cartão de crédito e os mecanismos islâmicos de financiamento social.
É necessário que os doadores sejam mais flexíveis na forma como financiam as crises e que as agências de ajuda sejam o mais eficientes e transparentes possíveis quanto ao gasto do dinheiro.
Nosso mundo está em um ponto de inflexão. A CHM e sua Agenda Para a Humanidade são hoje mais necessárias do que nunca. Nós, como cidadãos do mundo, devemos exortar nossos líderes a se reunirem na Cúpula e se comprometerem com as medidas necessárias para reduzir o sofrimento humano. A humanidade deve ser a opção suprema. 

Envolverde/IPS

*HervéVerhoosel é porta-voz da Cúpula Humanitária Mundial (CHM), que acontecerá em Istambul, na Turquia, nos dias 23 e 24 deste mês.Junte-se a nós em www.ImpossibleChoices.orge obtenha mais informações sobre a CHM em https://www.worldhumanitariansummit.org.

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