quarta-feira, 11 de maio de 2016

Casario histórico no bairro da Boa Vista pede socorro no Recife

Desabamento de imóvel na rua da Glória acende discussão sobre a situação de prédios na localidade



Felipe Ribeiro/Folha de Pernambuco
Após desabamento, casarão de dois andares amanheceu isolado. À noite, foi demolido

A preservação do casario histórico, traçando planos para o futuro urbanístico, ainda alimenta discussões no Recife. O bairro da Boa Vista figura como um dos maiores exemplos do problema causado pelo esvaziamento do Centro. Detentor de imóveis centenários e importantes polos culturais, a área mantém construções em ruínas. A rua da Glória, onde um imóvel desabou nesta semana após as chuvas, é um dos recortes da deterioração que se entende aos arredores.


Em algumas vias, o comércio tomou conta de antigos sobrados, sem se preocupar com a descaracterização. De acordo com a prefeitura, 430 mil m² hoje estão protegidos como Zona Especial de Preservação ao Patrimônio Histórico. No entanto, uma breve caminhada pelos estreitos corredores já evidencia um quadro de esquecimento.

Distante da beleza dos antigos sobrados e casarões, erguidos com imponência nos séculos passados, o que se vê nos dias de hoje são carcaças de portas e janelas, fachadas destruídas pela ação do tempo e muito entulho espalhado pelas vias. As estruturas oferecem riscos para moradores, comerciantes e transeuntes, obrigando muitos deles a abandonar as tradições e migrar para outros locais. “Quando penso no passado, vejo que tudo mudou. Tudo estava sempre cheio de gente, as casas muito arrumadas, com uma vizinhança unida. Hoje, só nos restou o vazio”, lamentou, em tom saudoso, o aposentado José Florêncio, 75 anos, residindo desde a infância na tradicional rua Velha.

As histórias se repetem bem próximo dali, nas ruas de São Gonçalo e Leão Coroado. O polígono enfrenta um processo de favelização, tomado por tapumes e construções irregulares. As pensões dominam boa parte da via. “Morar aqui já foi bom, mas hoje é só sujeira e abandono. Nenhuma benfeitoria que seja realizada na cidade chega por aqui”, criticou o administrador de empresas Tarcisio Acioly, 65.

O universitário Wesly Lins, 20, veio do Interior do Estado para dividir pequenos quartos com um grupo de estudantes. “Quando a noite cai, tudo fica ainda mais deserto, gerando medo”, revelou. Bem ao lado da casa do vendedor Thiago Lira, 44, outro imóvel apresenta rachaduras na fachada, tendo parte já se desprendido. Passando para a rua da Santa Cruz, que abriga o Mercado da Boa Vista, quase todos os espaços viraram lojas.

NECESSIDADES

O presidente do Conselho de Arquitetura e Urbanismo em Pernambuco (CAU/PE), Roberto Montezuma, avalia as dificuldades enfrentadas no Centro. “Às vezes, as residências são ocupadas por pessoas oriundas de outros lugares ou que herdam casas da família, desconhecendo a importância da manutenção da nossa memória urbana. Cabe a nós, acima de tudo, conscientizá-las”, explicou.

De acordo com a Diretoria de Preservação do Patrimônio Cultural, a área faz parte do setor de preservação rigorosa, tendo como benefício a negociação do IPTU. O imposto pode dar lugar a investimentos para manter os imóveis de pé. Pela lei, os proprietários são obrigados a manter a manutenção em dia e ficam impedidos de executar demolições ou reformas sem autorização do município.

    Para o secretário de Planejamento Urbano, Antonio Alexandre, a realidade encontrada na Boa Vista pode ser revertida, valendo-se da mesma receita para bairros como São José e Santo Antônio. “Temos uma cidade prestes a completar 500 anos que, assim como outras capitais, é alvo de movimentações naturais, alterando o tecido urbano. Há muito tempo iniciou-se uma substituição das atividades, com pessoas e empresas migrando para outras áreas. Foi inevitável”, comentou.




    Felipe Ribeiro/Folha de Pernambuco
    Maioria dos casarões está com placa de aluguel, um retrato do abandono no bairro da Boa Vista

    O gestor argumenta que a legislação prevê incentivos para a reforma e reocupação. “Mas depende do interesse dos cidadãos”, afirmou. Em relação aos riscos de acidentes, o secretário adiantou que 25 imóveis estão interditados na localidade e quando os proprietários não atendem às autuações são multados, podendo responder judicialmente.

    TUDO VIROU PÓ

    Na noite dessa terça-feira, o imóvel de número 189, na rua da Glória, teve iniciado o processo de demolição. Técnicos da Defesa Civil executaram o trabalho no casarão de dois andares, com o entendimento de que representaria riscos para os prédios vizinhos. Segundo relatos, a propriedade pertencia a antiga refinaria Amorim Primo. Porém, segundo o cuidador do prédio, Roberto Francisco, o imóvel foi passado para o Ministério do Trabalho para cobrir dívidas trabalhistas. “Estava desocupado há mais de 15 anos e já havia apresentado vários problemas”, disse.

    Marcílio Albuquerque, da Folha de Pernambuco

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