terça-feira, 17 de maio de 2016

O jardim perdido de Burle Marx em Casa Forte

Praça tem menos da metade das espécies plantadas na década de 30. Pesquisadores da UFPE querem resgatá-las

Bruno Campos

Microclima atual da praça, extremamente quente por causa dos prédios, prejudica as plantas

Das espécies de vegetais que constituíam o jardim de Casa Forte projetado pelo paisagista Burle Marx na década 30, menos da metade continua por lá. Aos poucos, 55% delas foram se finando e sendo substituídas pela mão de gestores que não conheciam o planejamento original de mais de 80 anos. Por meio de um trabalho de arqueologia botânica, o Laboratório da Paisagem da UFPE descobriu as 56 espécies da vegetação histórica de Marx e começou a resgatá-las. Na manhã de hoje, realiza no local uma vistoria semelhante à que resultou na restauração da praça há dois anos.

De acordo com um dos pesquisadores responsáveis pelo estudo e restauração, Joelmir Marques da Silva, o microclima de hoje na praça é diferente do de 1930, o que prejudica o desenvolvimento de algumas espécies. “Com o surgimento de prédios altos, o clima deixou de ser quente e úmido para ser extremamente quente, mas sem ventilação. A praça, dividida em três partes, tem a seção do meio voltada para a reprodução do bioma amazônico, que exige umidade. Por isso, plantamos palmeiras açaí, que devem reter a umidade dos espelhos d’água para tentarmos reproduzir o contexto”, contou Silva.

Das outras duas seções, uma reproduz diversos biomas brasileiros (Dezessete de Agosto) e a outra (Igreja Matriz de Casa Forte) traz espécies exóticas já presentes no Estado. A ideia do autor da Praça, de acordo com Silva, era que ela tivesse um caráter educativo. Mas ele foi chamado pelo governador Carlos de Lima Cavalcanti, mesmo, para ajudá-lo no projeto de embelezamento da cidade. “E era uma beleza nova, moderna. É o primeiro jardim de estilo moderno do Brasil. Esse é um dado importante”, ressaltou o estudioso.

“Burle Marx era um exímio botânico, além de paisagista. Infelizmente seu trabalho foi sendo danificado com gestores plantando a partir de seus gostos. Um deles, por exemplo, inaugurou uma nova iluminação no local e resolveu plantar duas espécies de árvores destoantes para preencher o espaço”, criticou.

As árvores plantadas de maneira errada não foram retiradas. Nem serão. Por outro lado, serão monitoradas para serem substituídas pelas corretas quando morrerem. As corretas foram descobertas por meio de um trabalho de pesquisa chamado arqueologia botânica. O estudo de entrevistas e discursos de Burle Marx e fotografias das décadas de 30 e 40 erviram como matéria-prima para identificação das plantas. “Criamos uma paleta vegetal. Essa, por sua vez, nos ajuda no novo plantio. Discursos do engenheiro recifense Joaquim Cardozo também foram úteis para vermos o projeto original.”

Vitória-régia não resistiuUma das plantas mais importantes do projeto inicial da Praça de Casa Forte é a vitória-régia. Dá, inclusive, nome à festa anual que ocorre no local. Ela não existe mais nos espelhos d’água da Praça, contudo. As flores, que se mostravam de março a julho, não podem mais ser apreciadas. De origem amazônica, essa espécie precisa de condições específicas para resistir.

“As pessoas veem os peixes e terminam jogando pipoca ou outros tipos de comida na água para ele. Acabam sujando o habitat das plantas, mudando as características dela”, explicou. A vitória-régia é sensível ao potencial hidrogiônico (ph) do lago, por exemplo. Atualmente, outras plantas aquáticas semelhantes foram colocadas em seu lugar.

“O transporte da vitória é caríssimo e dinheiro é uma das nossas limitações. Outra é a falta de sementeiras que disponibilizam esses exemplares. Nosso plano de conseguir ter a planta novamente está no Jardim Botânico do Rio de Janeiro, que é um produtor delas. Nós pretendemos comprar as sementes para cultivá-las aqui no Recife.”

Plantas roubadas na inauguraçãoNa inauguração da restauração da Praça realizada pelo Laboratório de Paisagem da UFPE, coordenada pela arquiteta e urbanista Ana Rita Sá Carneiro, cerca de 40% das flores plantadas foram roubadas. Antúrio, árvore do viajante e copo-de-leite foram as três espécies mais furtadas. “Foram plantadas pela manhã. Tínhamos conseguido essas plantas todas com as flores abertas, exuberantes. Quando chegamos à noite para o evento, não estavam mais lá. Os policiais tinham saído da guarita, ninguém viu nada. Mas não estavam mais lá”, lamentou Silva.

Paulo Trigueiro, da Folha de Pernambuco

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