terça-feira, 10 de maio de 2016

Trinta e uma escolas do país mostram como melhorar a educação pública

Pesquisa feita pela Fundação Lemann em 2015 mostra o que as escolas com maior aumento de qualidade nos anos finais da educação fundamental fizeram para chegar lá

FLÁVIA YURI OSHIMA

Quando se fala em qualidade de educação, os anos iniciais do ensino fundamental e ensino médio são  imediatamente lembrados. Foi assim no governo Lula, no governo Dilma e um possível governo Michel Temer já mostrou que seguirá na mesma direção. O documento Travessia Social, em que o PMDB apresenta seus projetos para educação, saúde, emprego e moradia, elege os primeiros anos da educação básica e o ensino médio como prioridade. Não estão errados em imbicar para esse lado. O problema é não terem incluído atenção especial também ao ciclo final do fundamental, que vai do 5º ao 9ª ano, período cujas notas nacionais estão aquém da meta de 2013 e 2015 e denunciam crise equiparável à do ensino médio -  mas muito menos lembrada.

Escola Municipal Geraldo Ro (Foto: Acervo/Fundação Lemann )
A média das notas nacionais, medida pelo Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), do ensino fundamental II é de 4,2. Deveríamos ter ultrapassado essa pontuação ainda em 2013, quando a meta apontava para 4,4. A próxima meta, de 2017, é de 5,0. Basta saber que em quatro anos, de 2009 a 2013, essa nota cresceu apenas 0,2 pontos  para ter uma ideia do tamanho da tarefa que será melhorar essa nota.

Na prática essas baixas notas se traduzem em problemas reais de aprendizado da maioria das crianças de escola pública, de 11 a 14 anos. O baixo desempenho dos alunos dessa etapa é realidade em todo o país. Infelizmente o número de escolas com resultados altos em proficiência é baixíssimo. Somente 16% dos alunos termina o ciclo dos primeiros nove anos de escolaridade com conhecimento adequado de matemática. 

Essas deficiências têm consequências devastadoras para o ensino médio. Para tentar identificar as práticas que levam ao bom desempenho do aluno, a Fundação Lemann resolveu replicar a pesquisa Excelência com Qualidade, que havia sido feita com os primeiros anos da educação básica em 2012. Usou os mesmos critérios. 

A fundação acompanharia escolas com 70% dos alunos com aprendizado adequado de língua Portuguesa e de matemática; máximo de 5% de crianças com aprendizado insuficiente nessas disciplinas e nota igual ou maior que 6 (Ideb) nos primeiros anos. O resultado foi surpreendentemente ruim. Somente três escolas em todo o país atenderam aos pré-requisitos. 

O recorte foi então alterado. Baixaram a régua e estabeleceram como prioridade a capacidade que a escola teve para elevar a qualidade do ensino, em matemática e língua portuguesa, quando comparada a ela mesma. Em matemática, as escolas teriam de ter mais de 40% de proficiência agregada. Em português, mais de 60%. Trinta e uma escolas passaram nos critérios de seleção.  Além de mostrar possibilidades de caminhos para melhorar o ensino e aumentar o aprendizado, o levantamento também evidencia os principais fatores para a baixa qualidade dessa etapa.

O primeiro deles é o desafio de trabalhar a defasagem de aprendizado que o aluno traz dos anos iniciais. Esse é um problema enfrentado por todas as escolas, sem exceção. A mudança de modelo do 6º ano é um complicador. Até o 5º ano, o aluno teve um único mestre com mais tempo para conhecê-lo e, dessa forma, saber trabalhar de forma mais efetiva com a criança, ajudando-o com suas fragilidades. 

No 6º ano, é a primeira vez que o aluno passa a ter diversos professores especialistas. Essa mudança de formato e a quebra do vínculo com um único professor é um complicador já conhecido. Pesquisas ao redor do mundo mostram queda de desempenho nessa fase creditada a essa mudança.

Escola E.M.F.-Profa (Foto: Acervo/Fundação Lemann)
A diferença de perfil dos professores especialistas, em relação ao professor que cursou pedagogia, com quem os alunos estavam acostumados até o  5º ano, colabora com o desafio dessa fase. O pedagogo normalmente tem uma postura mais acolhedora e paciente com as falhas dos alunos, enquanto os  professores de matemática, ciências e português, até pela correria do pouco tempo que têm em cada classe, são mais objetivos e tendem a dar menos atenção a dificuldades individuais. Muitos alunos têm dificuldade de corresponder, de cara, a essas exigências.

Do lado pessoal do aluno também há complicadores. A partir dos 11 anos, idade em que a criança normalmente inicia esse período, surgem questões socioemocionais inéditas, típicas da entrada na pré-adolescência. “Nessa faixa etária, as crianças já têm mais autonomia e os pais têm mais dificuldade em impor disciplina, acompanhar horário de estudos e inspecionar o cumprimento das responsabilidades que eles têm”, diz Ernesto Faria, coordenador da pesquisa Excelência com Equidade.

A combinação desses aspectos próprios da segunda etapa do fundamental e os problemas com qualidade e recursos que a educação básica enfrenta no país são a base do baixo desempenho dos alunos desse ciclo.

O mérito da pesquisa feita pela Fundação Lemann está em rastrear pontos comuns à maior parte das 31 escolas em diferentes áreas, da gestão da escola às práticas pedagógicas. A seguir as ações que elegeram as melhores escolas públicas em ensino fundamental II:
• Na base da pirâmide está a preocupação em assegurar as condições para que os alunos frequentem as aulas e se mantenham na escola ao longo dos anos.  

Foram listados  os seguintes fatores  que contribuíram para isso, de acordo com os pesquisadores: ambiente escolar seguro;  cultura de boa relação professor e aluno; investimento em projetos estimulantes; ambientes agradáveis; controle de faltas (a partir da segunda falta consecutiva, a escola liga para a família do aluno para saber o que ocorreu); atenção à pontualidade; cumprimento da carga horária (quando um professor falta, a aula é dada por um substituto e a carga horário total de cada disciplina é respeitada) e sensação de pertencimento do aluno.    

• A articulação sistemática entre a secretaria de educação e a escola para suporte pedagógico aparece como outro ponto em comum às escolas selecionadas. Nesses casos, a secretaria não só fornece subsídios para a escola, como a ajuda a identificar a razão dos problemas, ajuda a definir prioridades e acompanha o desempenho da escola.

• O papel do diretor aparece também como indispensável para a escola, principalmente na gestão dos professores e na organização da rotina escolar. Os professores dessas escolas são identificados como profissionais com autoestima elevada.

• Orientado pela direção, o professor considera o contexto de vida dos alunos na forma como os avalia e cobra. Parte do princípio de alimentar altas expectativas em relação a todos, mas adapta a abordagem à medida que reconhece dificuldades particulares.

• O tempo pedagógico é respeitado. O aproveitamento do tempo de aula de cada disciplina é cumprido rigorosamente. Os horários de começo e termino das aulas são respeitados assim como há o cuidado na condução da aula para que o tempo não seja desperdiçado.

• São feitas avaliações diagnósticas e o trabalho pedagógico é pautado pelas avaliações, com acompanhamento contínuo.

• Por fim, a última estratégia comum às escolas com o desempenho mais alto entre os alunos do fundamental II é a leitura como prática de rotina. As aulas se organizam para que haja oportunidades cotidianas de leitura. O objetivo é transformar os alunos em leitores ativos.

Participaram dessa pesquisa escolas de São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Espírito Santo, Ceará e Rio Grande do Norte.

Época

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