segunda-feira, 27 de junho de 2016

Britânicos saem em busca de passaportes europeus



À medida que a madrugada de quinta-feira se transformava em manhã no verão europeu, o inglês Jonathan Wood não acreditava no que via: seu país havia optado por sair da União Europeia (UE), com implicações econômicas e políticas, mas principalmente provocando uma reviravolta na vida de milhares de famílias.

Com dois filhos nascidos em Genebra, Wood já havia se preparado para o pior e, nas últimas semanas, deu início a seu pedido para obter passaportes italianos, graças a seus antepassados que haviam migrado da Itália para o Reino Unido.

Ele não é o único a buscar passaportes europeus. Segundo o Google, houve um aumento inédito do termo “buscando passaporte irlandês” em seu canal de busca na internet. O governo de Dublin, que faz parte da UE, indicou também ter recebido um grande número de pedidos de passaporte por parte de britânicos nos últimos dias.

Na Irlanda do Norte, os correios contrataram 200 pessoas a mais para lidar com o fluxo de pedidos pelo formulários de passaportes, esgotados ontem.

“Estou fazendo isso pelos meus filhos”, disse Wood ao Estado, indignado com o resultado. “O maior impacto será para meus filhos que são registrados como britânicos”, disse. “Qual será a identidade europeia que terão? Qual será seu futuro na Europa?”

Assim como para a família Wood, a decisão do Reino Unido de deixar a UE abriu uma era de incerteza para milhões de pessoas. Para os estrangeiros vivendo e trabalhando em Londres, as dúvidas são sobre o que a decisão significa para o futuro de suas famílias. Para os britânicos espalhados pela Europa, a dúvida é se poderão continuar vivendo e trabalhando nesses países.

Durante a campanha, líderes como Nigel Farage, da extrema direita, usaram o argumento da imigração para convencer os eleitores a deixar o bloco europeu. Segundo ele, esse era o motivo do desemprego e dos abusos nos serviços públicos.

Hoje, cerca de 5 milhões de europeus e não europeus de diferentes nacionalidades vivem e trabalham no Reino Unido e correspondem a cerca de 12% da força de trabalho. Pelos acordos que terão de ser negociados, a população europeia, de cerca de 3 milhões, deve ser autorizada a ficar. Mas uma série de perguntas ainda está sem resposta. Uma delas é se esses estrangeiros poderão trazer seus parentes ou como ficará a situação daqueles que têm contratos que começarão a vigorar a partir do próximo mês.

Outro suspense se refere ao controle de fronteira. Ao Estado, a ex-presidente da Suíça Micheline Calmy-Rey indicou que Londres apenas terá acesso ao mercado europeu se concordar com a livre circulação de pessoas. Mas com a campanha dos grupos que pediram para sair da UE prometendo a “volta do controle de fronteiras”, esse aspecto está em suspenso.

Em restaurantes, lojas e hotéis, mais de 10% da força de trabalho é composta por europeus. Pelas novas regras, porém, poucos sabem dizer se a imigração sem qualificação profissional será aceita. Do Leste Europeu, são 1,2 milhão de trabalhadores - entre eles 853 mil poloneses e 175 mil romenos.

Já na Europa, vivem e trabalham cerca de 2 milhões de britânicos, dominando algumas regiões como o sul da Espanha ou Portugal. Nos últimos dias, o primeiro-ministro espanhol, Mariano Rajoy, chegou a alertar que os britânicos perderiam “o direito de ir e vir livremente pelas fronteiras”.

Depois de uma campanha pela saída que teve a imigração como tema central, o líder do movimento Boris Johnson tentou tranquilizar britânicos e estrangeiros. “Não vamos virar nossas costas para a Europa”, garantiu para, em seguida, ponderar. “Poderemos assumir o controle de nossas fronteiras de uma forma que não seja discriminatória, mas justa e equilibrada, deixando extremistas para fora”, disse.

Ele ainda acusou o grupo que defendia a permanência do Reino Unido na UE de estar “jogando com a imigração”.

O governo húngaro de Viktor Orbán, acusado de fechar suas fronteiras para refugiados, reiterou que a decisão de Londres foi “uma resposta à pressão migratória”. “O assunto decisivo foi a migração e respeitamos a decisão”, disse. “É um direito de todas as nações decidir sobre seu destino. Bruxelas precisa escutar a voz das pessoas”, disse Orbán.

Em meio à incerteza, o papa Francisco fez um apelo para que líderes garantam a “convivência” de todos. “Foi uma decisão do povo. Isso nos exige uma grande responsabilidade para garantir o bem do povo do Reino Unido e também o bem e a convivência de todo o continente europeu”, disse.

Já a ONU advertiu que a decisão do Reino Unido não poderá afetar seus compromissos em relação aos refugiados. Nos últimos meses, a entidade tem alertado para os riscos de discursos políticos populistas e xenófobos. Na sexta-feira, porém, limitou-se a lançar um alerta de que “nada muda” em comparação às regras que Londres terá de seguir sobre os refugiados.

“Trata-se de uma decisão soberana”, disse o Alto-Comissariado da ONU para Refugiados. 

“Mas o resultado não muda os compromissos com o direito internacional”, afirmou, em referência às regras de 1951, que criam um compromisso de governos em receber refugiados e de não os expulsar de volta a países em guerra. 

A Organização Internacional de Migrações (OIM) também lançou um alerta, insistindo que a decisão de sair da UE não pode significar mudanças no tratamento de migrantes. “Respeitamos a decisão. Mas uma migração administrada precisa garantir que haja segurança para todos”, disse Joel Millman, porta-voz da OIM. 


Estadão

Nenhum comentário:

Postar um comentário