segunda-feira, 6 de junho de 2016

Calçadas ainda estão em segundo plano no País

Passeio é o primeiro passo para humanizar espaços públicos e alavancar qualidade de vida




Alfeu Tavares/Folha de Pernambuco
Trechos da rua Madre de Deus, no Bairro do Recife, são convidativos e influenciam na qualidade de vida de quem frequenta o bairro

Quarenta anos de atraso. É nesse parâmetro que o Brasil se enquadra no que diz respeito a calçadas. Diferentemente do que ocorre em vizinhos como Chile, Peru e Argentina, aqui elas estão em segundo plano. E não é de hoje.


O “boom” rodoviarista da década de 60 absorveu investimentos e colocou o transporte motorizado, sobretudo o carro, no topo dos desejos de consumo. Faltou vontade política para garantir passeios públicos dignos e convidativos, o básico a quem faz deslocamentos a pé - dois terços da população. 

Uma escolha que impactou não só a mobilidade, mas também a qualidade de vida, o meio ambiente e a forma como o cidadão interage com o lugar onde vive. Afinal, caminhar tem tudo a ver com uma cidade viva.

Falar de calçada vai além de discutir o planejamento urbano. Envolve bem-estar, inclusão, dignidade, muito do que não se vê em boa parte dos 25 milhões de metros quadrados de áreas destinadas a pedestres na capital pernambucana. Como num verdadeiro campo minado, pedestres têm os desníveis, os buracos e a falta de sinalização como obstáculos, além de ocupações irregulares de imóveis, ambulantes ou veículos estacionados.

“O tema calçada ainda é tratado com preconceito. Temos a visão de que o pedestre é aquele que não pode comprar um carro. É só olhar exemplos diários de motoristas que fazem a curva em velocidade, que saem da garagem em velocidade, sem atentar a quem está a pé. Na prática, o pedestre é invisível”, diz o consultor em gestão Francisco Cunha, sócio da TGI Consultoria e autor do livro “Calçada: o primeiro degrau da cidadania urbana”.

O arquiteto participará do seminário regional “A mobilidade a pé e o futuro do Recife - o planejamento urbano traçado pelo caminhar cotidiano”, que ocorre amanhã, das 8h às 17h30, no Bairro do Recife. O evento terá a presença de especialistas e do prefeito Geraldo Julio. Palestras, oficinas e uma caminhada guiada compõem a programação gratuita. O seminário será promovido pelo Instituto da Gestão (INTG) em parceria com a TGI.

“Caminhabilidade”

Um alento para acreditar numa cidade “caminhável” é olhar para experiências exitosas, não necessariamente de fora de Pernambuco. Algumas calçadas do Bairro do Recife são apontadas como modelo por especialistas, como as que ficam perto do Marco Zero e na rua Madre de Deus. 

É na região, aliás, que será instalado o primeiro boulevard da Capital, na avenida Rio Branco, fechada ao tráfego de veículos. Aliados à velocidade limitada a 30 km/h nas ruas - a chamada Zona 30 -, rampas, passagens em nível e o piso largo convidam a caminhar. O efeito aparece na rotina.

“É um lugar onde você tem livrarias, shoppings, lazer, estações de bicicleta. A pessoa pode sair do trabalho e resolver tudo a pé. Consegue ser o que há de mais aproximado no Recife de um ambiente com boa capacidade de ‘caminhabilidade’, o conceito de walkability”, exemplifica Cunha.

A expressão em inglês refere-se a aspectos que fazem uma região ser convidativa ao pedestre, levando em conta as boas condições do passeio público, a existência de lugares aonde ir a pé e a proximidade deles do ponto de origem. No fundo, traduz o potencial que a mobilidade a pé tem de trazer bons frutos à qualidade de vida dos cidadãos. 


“Além de fazer bem à saúde da pessoa, a busca por uma cidade em que se possa caminhar mais também permite uma leitura do ponto de vista das mudanças climáticas. No Recife, 66% das emissões de carbono vem de transportes motorizados como carros, ônibus”, explica a presidente do Instituto da Gestão (INTG), Fátima Brayner.

Para a especialista, que também participará do seminário, abrir caminhos para o pedestre é uma forma de possibilitar o se reconhecer no lugar onde vive. É uma relação de identidade e que, por consequência, poderia mudar a forma como as pessoas se apegam e cuidam da cidade. “O lugar passa a fazer sentido para as pessoas. Elas veem monumentos e paisagens de um jeito que não enxergam quando estão em outra posição. O monumento passa a ter cheiro, cores, textura. Há a interação. Não posso gostar de algo se não tenho esse contato. É como viver num lugar que não conheço”, reflete.


Luiz Filipe Freire, da Folha de pernambuco

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