quinta-feira, 30 de junho de 2016

Memória das elites intelectuais está protegida em Pernambuco

Documentos administrativos e correspondências do Ginásio agora estão sob guarda do Arquivo Público



Felipe Ribeiro
Colégio com 191 anos guarda histórias de alunos e mestres célebres

Centenas de documentos históricos da instituição de ensino mais antiga de Pernambuco, com 191 anos, por pouco, não foram perdidos. Não fosse curiosidade de um pesquisador da UFPE, boletins e atas de provas de intelectuais ilustres como Ariano Suassuna - entre outras pérolas referentes ao Ginásio Pernambucano - poderiam ter sido perdidos. O material, que em linha reta compreende pouco mais que a altura de um prédio de dois andares, será passado à guarda do Arquivo Público de Pernambuco nesta quinta-feira (30), às 10h, em so­lenidade. A instituição bus­ca verba da Facepe para digitalizar o novo acervo.

O arquivo estava guardado em um laboratório de ciências do Ginásio Pernambucano da Avenida Cruz Cabugá, em Santo Amaro, Centro do Recife. Foi encontrado durante pesquisa do professor de metodologia do ensino de biologia Gilmar Farias.


“Meu interesse é na evolução do ensino da biologia em Pernambuco. Eu buscava materiais específicos como relatórios e regimentos, mas no colégio, ninguém sabia exatamente o que havia ali entre os documentos antigos. No segundo livro que olhei, achei uma carta do primeiro governador republicano do Estado, informando ao regedor do ginásio que ele estava ocupando aquele cargo, a partir daquele novembro de 1889. Fiquei muito impressionado”, lembrou. “Procuramos o Arquivo, eu e a diretora do colégio, e eles fizeram uma força-tarefa para catalogar tudo.”

Outros documentos historicamente importantes foram achados no processo. “Devido ao olhar do historiador Hildo Leal da Rosa, encontramos o livro que registrava a admissão de Ariano Suassuna no colégio, na década de 1940, por exemplo. O Arquivo Público reteve ainda um livro com a peça Antígona, de Sófocles, que seria dirigida pelo dramaturgo intelectual. “Junto, há um documento da censura da época. Proibia o espetáculo por atentar contra a moral e os bons costumes. É até engraçado, porque a peça foi escrita há mais de dois mil anos”, comentou o gestor do Arquivo, Evaldo Costa.

O material ainda será estudado, tratado e restaurado. Lentamente. Para digitalizá-lo, é preciso inclusive um orçamento extra, reforça Evaldo. “Só de jornal, há mais de dez mil títulos. Seria um esforço absurdo para digitalizar tudo. Para esse material do Ginásio, nossa intenção é chamar uma equipe de fora para ser coordenada pela nossa. Para isso precisamos de um reforço orçamentário, que buscaremos com o Governo do Estado através da Facepe. Nesses moldes, mas com verba do Arquivo Nacional, estamos estamos tendo sucesso com a digitalização do material do DOPS”, exemplificou Costa.

A maioria do conteúdo dos documentos ainda é desconhecida. A expectativa da própria equipe do Arquivo Público é grande. A lista de penalidades é a que desperta mais curiosidade.

Durante muito tempo, praticamente todos os políticos e intelectuais importantes de Pernambuco e estados vizinhos passaram pelo local. “Na época, era como uma verdadeira universidade, de nível altíssimo. Os professores eram os mais brilhantes. A relação direta que se pode fazer é com o Dom Pedro II, no Rio de Janeiro”, explicou o historiador Frederico Pernambucano de Mello, neto de Ulysses Pernambucano, psiquiatra que estudou e ensinou no Ginásio Pernambucano.

Solenidade

A transferência do material do Ginásio Pernambucano para o Arquivo Público será marcada por uma solenidade na manhã de hoje. Às 10h, o secretário de Educação, Fred Amâncio, a direção do Arquivo e a diretora do colégio Maria Suely Novaes estarão presentes.

Paulo Trigueiro, da Folha de Pernambuco

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