domingo, 12 de junho de 2016

O Recife ainda está de costas para a bicicleta


ciclovia

O Recife ainda está de costas para as bicicletas. É fato. A cidade, devido ao olhar limitado de gestões e gestões, não entendeu que a mobilidade das pessoas precisa ser mais ampla do que o automóvel. Há outras possibilidades e o poder público não enxerga isso. Finge enxergar e faz propaganda desse fingimento, mas na prática não exerce, não pratica. Dossiê preparado pela Ameciclo comprova. O alvo foi a execução do Plano Diretor Cicloviário (PDC) na capital. O levantamento mostra que, além de não transformar em prática o discurso da mobilidade não motorizada, com a implantação de uma malha ciclável decente, o Recife, no pouco que fez, ignorou as diretrizes do plano, que custou caro e foi pago com o dinheiro do povo: R$ 860 mil dos cofres do Estado. Entre fevereiro de 2014 (mês subsequente à conclusão do plano) e dezembro de 2015, o Recife executou apenas 26,74 km de ciclofaixas (em sua maioria) e ciclovias. Deveriam ter sido 90 km até o fim da gestão. Além disso, apenas dois quilômetros executados estavam previstos no PDC. Não que o implantado seja desprezível – longe disso –, mas no entendimento da Ameciclo, revela que a PCR ainda não enxerga a mobilidade ciclável como opção real de transporte para o cidadão. Implanta onde é mais viável e, não, onde é mais necessário.
Existe uma demanda de ciclistas reprimida que a prefeitura ainda não enxerga. Ela parou no tempo”,
Guilherme Jordão, da Ameciclo.

Bike teve 0,42% do recurso do carro

Em três anos, a gestão Geraldo Júlio investiu apenas R$ 653 mil na malha ciclável do Recife. Por outro lado, gastou R$ 155 milhões pavimentando e recapeando vias. Ou seja, a bike recebeu menos de 1%. Só com propaganda da Via Mangue, uma semana antes da inauguração da pista leste, em janeiro, pagou R$ 477 mil em campanhas de TV. “Não se investe por demanda. Planejar é projetar para o que você quer. Não se constrói uma ponte considerando as pessoas que passam a nado no trecho. Existe uma demanda de ciclistas reprimida que a prefeitura ainda não enxerga. Ela parou no tempo”, critica Guilherme Jordão, da Ameciclo.


PDC é ignorado
Segundo a Ameciclo, a única rota implantada nas diretrizes do PDC foi a da Av. General Mac Arthur, ligando Boa Viagem a Imbiribeira, com 2 km. A via é continuação da Rua Antônio Falcão e se conecta com a Via Mangue. Não há ligação com a Avenida Boa Viagem porque, para ser implantada, restringe o espaço do automóvel. Mais uma vez, um exemplo do que diz a Ameciclo. Rota ligando o Bairro do Recife a Olinda, com 5 km, também não avançou. As outras duas – Arquiteto Luiz Nunes (Imbiribeira) e Antônio Curado (Engenho do Meio), não cumpriram as determinações. A primeira deveria ser ciclovia e virou ciclofaixa e, a segunda, além de virar ciclofaixa, foi implantada num trecho distinto do determinado pelo PDC. As outras duas – Arquiteto Luiz Nunes e Antônio Curado –, não cumpriram as regras. A primeira deveria ser ciclovia e virou ciclofaixa e, a segunda, além de virar ciclofaixa, foi implantada num trecho distinto do PDC.


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A ciclofaixa do Engenho do Meio é um bom exemplo pela conexão com a existente no Canal do Cavouco, feita ainda na gestão do PT. Mas os ciclistas a citam como um exemplo negativo porque, mais uma vez, foi implantada onde não havia tanta necessidade. Guilherme Jordão pondera que ela é formada por vias de 30 km/h, largas, que podem ser usadas pelo ciclista com segurança. “Enquanto isso, temos a Avenida Caxangá, por exemplo, repleta de ciclistas, sem nenhuma estrutura segura para a bicicleta. Se houvesse uma política séria, era lá que haveria uma ciclovia. O PDC prevê isso, inclusive. Eles jogam dinheiro fora fazendo uma malha onde não há necessidade”, afirma.

MPPE cobra execução do PDC na Justiça

O dossiê da Ameciclo foi elaborado para subsidiar inquérito civil instaurado pelo MPPE e que resultou numa ação civil pública, encabeçada pela Promotoria de Defesa da Cidadania. Nela, o MPPE requer que o Estado e o Recife executem totalmente o PDC até dezembro de 2018. O prazo de 2,5 anos, entretanto, soa longo quando se lembra que o PDC já está atrasado há três anos.

A CTTU contesta a informação da Ameciclo. Diz que já planejou as 12 rotas cicláveis previstas no PDC e que, em três anos, fez 18 km de malha para a bicicleta indicada no plano. A Secretaria de Turismo de PE envia nota garantindo que o edital da primeira rota do PDC, ligando o Bairro do Recife à Fábrica Tacaruna, sai até o fim do mês. O pacote inclui oficializar a rota de 5 km com sinalizações e adequações.

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Veja a íntegra da resposta da Prefeitura do Recife:

“A Companhia de Trânsito e Transporte Urbano do Recife (CTTU) informa que realizou a prospecção de 12 rotas cicláveis em consonância com o Plano Diretor Cicloviário da Região Metropolitana (PDC/RMR). Assim, a Rede Cicloviária Complementar está sendo projetada de forma que as novas rotas cicláveis se conectem com as já existentes e com Rede Cicloviária Metropolitana. Os projetos priorizam o atendimento aos bairros que abrigam polos de interesse, como parques, praças, mercados públicos e terminais integrados, criando pontos de conectividade entre esses equipamentos.

Em pouco mais de 3 anos, a Companhia já implantou cerca de 18 km de rotas cicláveis e já deu início à implantação do PDC. São elas: Arquiteto Luiz Nunes (3.5 km), Marquês de Abrantes (1.9 km), Antônio Curado (3.2 km), Inácio Monteiro (2.4 km), Antônio Falcão (1.7 km), Via Mangue (5,3 km). Um trânsito mais humanizado é uma das prioridades da CTTU, que deu ao Bairro do Recife uma nova cara, com a implantação da Zona 30 – onde 22 ruas tiveram a velocidade reduzida para 30 km/h e uso compartilhado e seguro entre os diversos modais foi estimulado.

A próxima ciclofaixa será implantada no bairro de Jardim São Paulo, que depois de instalada, vai se conectar às ciclofaixas Antônio Curado e Inácio Monteiro, nos bairros do Engenho do Meio e Curado, respectivamente. As três ciclofaixas vão se ligar com as rotas já existentes na Avenida do Forte, Rua 21 de Abril e na Avenida Arquiteto Luiz Nunes, compondo uma rede cicloviária de cerca de 20 quilômetros, ligando a Zona Oeste à Zona Sul do Recife e beneficiando diretamente 10 bairros: Engenho do Meio, Cordeiro, Jardim São Paulo, Iputinga, Torrões, San Martin, Mangueira, Mustardinha, Afogados e Imbiribeira.  

TOTAL DA REDE CICLÁVEL EXISTENTE NO RECIFE: 41,63 km”.

JC Trânsito

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