domingo, 12 de junho de 2016

Quem compraria o Banco do Brasil? (*)

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(*) César Locatelli, especial para os Jornalistas Livres

O governo interino agrupou ministros e executivos com interesses fortemente enraizados no setor privado. O discurso retorna 20 anos no tempo, quando predominava a defesa da redução do tamanho do Estado pela via da privatização de empresas. Quem é prejudicado e quem ganha com essa guinada na política econômica?

Para começar essa discussão, vamos pensar as atividades dos bancos públicos e privados?
O que faz um banco? Bem, sua atividade básica é captar dinheiro da população, das nossas contas correntes e das nossas contas de poupança para, em seguida, emprestar para outras pessoas ou empresas. Qual é o principal interesse dos bancos privados? Obter o maior lucro. Tomar dinheiro emprestado do modo mais barato possível e emprestar, com melhor relação taxa/risco possível. Ou seja emprestar para aquelas atividades que promovam o maior resultado, o maior retorno financeiro para o banco, com o menor risco possível.

Qual é o objetivo de um banco público? O banco público busca lucro da mesma forma, mas tem outros interesses. O banco público busca injetar dinheiro para financiar atividades que sejam importantes para a economia e, ao mesmo tempo, que sejam importantes para o desenvolvimento social do país. Atividades, que muitas vezes têm mais risco ou que não têm a mesma rentabilidade, são deixadas de lado pelos bancos privados. O banco público busca o lucro financeiro, mas busca também o lucro social, o ganho que uma atividade promove para a sociedade como um todo.

O Banco do Brasil
O Banco do Brasil, por exemplo, tem um papel crucial no financiamento da agricultura. Ele é o principal financiador dos agricultores do Brasil. Financia grandes, médios e pequenos agricultores. Emprestar dinheiro para os agricultores é uma atividade que não atrai os bancos privados porque tem risco, porque o banco precisa estar em todas pequenas cidades do país, porque precisa de especialização, enfim há uma série de fatores que fazem com que a grande maioria dos bancos privados fiquem fora do financiamento da agricultura. E essa é justamente a principal tradição do Banco do Brasil, há mais de cem anos.
O que acontecerá se o Banco do Brasil passar às mãos de um banco privado? O financiamento da agricultura ficará menor e mais caro, especialmente para os pequenos e médios agricultores com menor poder de barganha.

A Caixa Econômica Federal
Vamos ao exemplo da Caixa Econômica Federal no financiamento da compra da casa própria? De cada três casas financiadas, duas o são pela Caixa. Seu objetivo é obter lucro, mas tem, ao mesmo tempo o objetivo de financiar uma atividade que traz lucro social: a construção de casas é importante para quem conquista a casa própria, mas também é muito importante para a sociedade e para a economia. Essa é a principal diferença entre um banco privado e um banco público. Um está interessado no seu ganho, enquanto que o outro está interessado em seu ganho e no ganho social.
O que acontece se privatizamos a Caixa? Os financiamentos da casa própria ficarão mais caros e diminuirão. Menos dinheiro será direcionado para construção de casas, a atividade diminuirá: perderá quem quem comprar uma casa, mas perderá principalmente a economia brasileira.

Em outros países
Nos EUA, o financiamento imóveis era feito, especialmente por três empresas públicas. Com o tempo decidiram privatizá-las, mas mantendo o mesmo foco no ganho financeiro e no ganho social. Com a crise dos imóveis de 1998, essas empresas tiveram seríssimas perdas e voltaram para o controle do governo. Especialmente por que julgaram que a economia estadounidense não poderia ficar sem esse motor que é a construção e o financiamento de casas.

Quando todos os bancos são privados o país perde o poder de direcionar recursos, de mandar dinheiro para atividades importantes para o desenvolvimento do país. Todos os bancos passam a emprestar somente para aquelas atividades que lhes o maior lucro.

Quase todos os países desenvolvidos tem os chamados Eximbanks, que são bancos que financiam a exportação dos países. A exportação é uma atividade que também tem lucro social porque faz a economia crescer, gera empregos, ou seja a exportação promove lucros sociais além dos lucros financeiros. Os Eximbanks sõa bancos públicos que promovem o desenvolvimento o crescimento das exportações do país.

Por que querem privatizar tudo o que for possível?

O objetivo da política econômica neoliberal, que prega a privatização entre outras coissas, é a diminuição do tamanho do Estado. Os economistas que apóiam o neoliberalismo afirmam que o Estado é ineficiente e que se deve passar para as mãos da iniciativa privada tudo o que for possível. Mas, diversos estudos têm mostrado que essas políticas agravam a desigualdade e que, o prórpio aumento da desigualdade, acaba prejudicando o crescimento econômico.

Nessa semana saiu um estudo de três economistas do FMI que afirma exatamente que as políticas neoliberais, que prometiam maior crescimento e mais eficiência, terminam com maior desigualdade sem maior crescimento. O estudo orienta que “aqueles que fazem as políticas econômicas públicas e as instituições, como o FMI que os aconselha, não devem ser guiados pela fé, mas pela evidência do que funcionou”.

Os partidários dessa política não revelam os altos custos, no curto prazo, que diminuem o bem-estar da população, pelo desemprego e pela menor produção: “além disso, como tanto a abertura [da economia a fluxos financeiros] quanto a austeridade [nas contas públicas] são associadas com aumento da desigualdade de renda, esse efeito distributivo retroalimenta o círculo vicioso. 

O aumento da desigualdade gerado pela abertura financeira e pela austeridade podem, por si mesmos, reduzir o crescimento, que é exatamente aquilo que a agenda neoliberal tenta expandir. Há, agora, forte evidência que a desigualdade pode baixar significativamente o nível e a duração do crescimento” (Ostry, Berg e Tsangarides, 2014).

Então, sob a justificativa de aumentar a eficiência da economia e promover o crescimento, as políticas de abertura financeira e de austeridade com diminuição do Estado aumentam a desigualdade de renda. E a própria desigualdade de renda prejudica o crescimento. Quem ganha com essas políticas? Quem compraria o Banco do Brasil?

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