segunda-feira, 13 de junho de 2016

Santuário resiste à Transnordestina

Igreja aguarda ser restaurada por empresa, após decisão da Justiça Federal




Divulgação
Edvaldo e Maria foram entrevistados por Márcia Hattori

A pequena Igreja de São Luís de Gonzaga, em uma comunidade quilombola de Custódia, no Sertão pernambucano, resistiu às investidas do tempo, da natureza, e dos gestores da Transnordestina Logística S.A., que planejaram a derrubada do santuário para dar lugar aos seus trilhos. Os engenheiros estranharam que rachaduras nas paredes de uma pequena capela a mais de 300km do Recife e sem aparente relevância arquitetônica fossem motivo de abertura de processo no MPF.


Não obstante, a Justiça Federal acatou pedidos do Ministério e condenou a empresa não só a modificar o trajeto da linha, mas também a reforçar e restaurar a capela declarada patrimônio histórico pelo Iphan durante o desenrolar da ação. A reestruturação ainda hoje é esperada pela comunidade. 

“Vieram duas vezes analisar e nunca mais apareceram. Ela, assim como várias casas das redondezas, estão rachadas devido às explosões necessárias para construir a ferrovia. Nosso chão é de pedra, os estouros são incríveis”, contou o morador Edvaldo Alexandre de Queiroz, 67. O aposentado era presidente da associação de moradores do Sítio dos Carvalhos no início dos anos 2000, época em que as máquinas chegaram ao pátio da Igreja. 

“A luta foi grande. As crianças ocuparam a igreja e a encheram de cartazes. Fizemos abaixo-assinado e levamos ao MPF, em Serra Talhada. Cheguei a ser ameaçado de morte pelos donos das fazendas que rodeiam a igreja, pois eles seriam prejudicados caso os trilhos fossem desviados. Ela fica no Sítio Fazendinha, onde há muitos latifúndios. Os únicos pobres presentes ali somos nós, vizinhos, e por causa da igreja.”

Século 17
As novenas, missas, batizados e casamentos só não foram interrompidos porque políticos da região garantiram a segurança no local. Mas para além da liturgia, a Igreja tem um significado histórico para a comunidade. Datada do final do século 17, tem sido o ponto de encontro dos moradores desde quando os mais velhos têm lembrança. Mas, ao sugerir importância histórica para a
Comunidade, os moradores foram informados pelos engenheiros de que precisariam de uma prova concreta para que ela não fosse derrubada. Foi aí que os arqueólogos entraram... 

Dezenas de esqueletos foram concretos o suficiente para o MPF sugerir paralisação das obras. Profissionais como Sérgio Serafim, professor de Arqueologia da UFPE, materializaram a história da comunidade ao encontrar um cemitério sob o piso das redondezas - e do interior - da capela.
“Achamos que não encontraríamos nada, porque vemos ossos de animais se deteriorando na superfície do Sertão. O clima é muito agressivo. Mas trabalhando entre entulhos e aterros, achamos alguns esqueletos.” Para o professor, a interação com os moradores foi importante também para o trabalho de arqueologia.
“A oralidade local revela que crianças jogavam bola com os crânios entre o cruzeiro e a igreja e, analisando o material, descobrimos que os crânios enterrados ali eram de pessoas oriundas da África, possivelmente escravos. Para uma Comunidade quilombola, a importância disso é muito grande. Um idoso lembrou do local exato onde enterraram a irmã dele”, relatou o doutor em arqueologia pela USP.

Derrubadas em todo o resto do País
“Várias ‘Igrejas de São Luís de Gonzaga’ pelo Brasil são derrubadas com as obras do PAC. O impacto dessas construções em pequenas comunidades é impensável”, avaliou a historiadora Márcia
Hatorri, que estudou o caso do Sítio Fazendinha e outro, no Piauí, para construir sua tese de mestrado na USP. 

As grandes obras mudam a realidade social dos territórios por onde passam. A escola de Sítio Fazendinha foi transferida para mais de um quilômetro de distância, por exemplo. Maior, melhor e mais confortável, admitem moradores. Mas ninguém parece preferir o novo estabelecimento. “Foi um desgosto imenso ver aquelas máquinas chegando. Quando a igreja foi ameaçada, fiquei
em choque. Fui criada ali dentro”, contou a moradora Maria de Araújo Silva, 56.

“Nesse caso, a Igreja foi ressignificada, virando símbolo de luta dos moradores”, interpretou a historiadora.  De acordo com ela, a sugestãode construir outra capela foi a primeira opção da Transnordestina. “Obviamente, não aceita pela comunidade. Afinal, a estrutura não era um patrimônio  cultural pela arquitetura e sim por questões imateriais, porque é lá onde são realizadas as festividades, os encontros e os ritos de tradição. A arqueologia ajudou a mostrar a estreita relação que existe entre o sítio e as comunidades.”

Museu
Inúmeros artigos encontrados em Custódia estão em posse da empresa de arqueologia contratada pela Transnordestina, sendo tratados para serem abrigadas na Igreja, que deverá servir como uma espécie de museu da Comunidade. A igreja foi trazida por Pantaleão de Siqueira, que morreu em 1795.  “Ela remonta os primeiros acessos àquela região”, esclareceu o arqueólogo Sérgio Serafim. 

Paulo Trigueiro, da Folha de Pernambuco

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