terça-feira, 28 de junho de 2016

'Voltem para casa': relatos de xenofobia inundam redes sociais apos votação da Brexit

"Pare a imigração e comece a repatriação", diz cartaz de manifestantesImage copyright @DWxLW
Image caption "Pare a imigração e comece a repatriação", diz cartaz de manifestantes
Mal tinha sido digerido o resultado do plebiscito que decidiu pela saída da Grã-Bretanha da União Europeia (UE) e começaram a pipocar nas redes sociais relatos sobre episódios racismo e xenofobia em várias cidades do país.
Internautas compartilharam e comentaram incidentes nos quais pessoas foram hostilizadas por causa da cor de sua pele ou de sua etnia.
Ainda não está claro se o resultado do plebiscito provocou a onda de hostilidade ou se apenas evidenciou algo que já vinha acontecendo.
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Image caption "Nesta noite minha filha saiu do trabalho em Birmingham e viu um grupo de jovens encurralarem uma garota muçulmana gritanto 'Vá embora, nós votamos pela saída'. Tempos horríveis"
Minha mãe trabalha em uma escola primária, uma mãe da Letônia apareceu na sexta feira para deixar suas crianças choranto e dizendo Image copyright @jimwaterson/Twitter
Image caption "Minha mãe trabalha em uma escola primária, uma mãe da Letônia apareceu na sexta feira para deixar suas crianças choranto e dizendo 'eles não me querem aqui'".
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Image caption "Minha conta de Facebook inclui uma amiga negra para quem disseram: 'Arrume suas coisas e vá para casa', cinco vezes em 25 minutos, em Baker Street"
No Twitter, a hashtag #postrefracism, que significa 'denuncie racismo relacionado ao plebiscito', tinha sido usada 21 mil vezes desde a manhã de segunda-feira.

'Faça as suas malas'
Shazia AwanImage copyright Shazia Awan
Image caption Shazia Awan, que nasceu no País de Gales recebeu uma mensagem no Twitter dizendo: "Vá para casa".
A ex-candidata a parlamentar pelo Partido Conservador Shazia Awan, que participou da campanha no País de Gales pela permanência da Grã-Bretanha na União Europeia, diz ter sentido "a diferença em como as pessoas passaram a agir" desde o momento em que a campanha se focou na questão da imigração algumas semanas antes do pleito.
Ela disse que durante a campanha conversava com uma mulher negra, quando um homem passou pelas duas e ofendeu sua interlocutora.
Pouco depois de escrever no Twitter que o premiê David Cameron - que liderou a campanha pela permanência do país na UE, se opondo a vários membros de seu próprio partido - era a "a coisa menos ruim" do Partido Conservador, recebeu uma mensagem "dizendo que eu deveria arrumar minhas malas e ir para casa".
"E eu nasci em Caerphilly, no País de Gales", conta ela. "Eu não gosto do que isso significa para todos nós".
Awan afirma que o governo deveria fazer mais para lidar com as consequências do resultado do referendo, "pois uma coisa muito perigosa foi desencadeada".
"O resultado tem legitimado o ódio racial das pessoas. Apesar deles não serem a maioria, eles são uma minoria intolerante que faz barulho e está machucando toda a comunidade".
"Há uma falha no governo em reconhecer o que está acontecendo, e isso diz muito sobre o estado da política na Grã-Bretanha no momento".

Poloneses

Houve também relatos de episódios de hostilidade contra a vasta comunidade polonesa no país. Em Huntingdon, foram distribuídos cartões com os dizeres "Chega de vermes poloneses" em domicílios e escolas.
Uma internauta, Kathleen Gaynor, postou cartões do tipo encontrados por sua mãe - e outras pessoas também relataram ter encontrado os mesmos.
Gaynor disse que sua mãe encontrou o cartão na porta de sua casa sob uma pedra. Seus vizinhos são poloneses e ela acredita que o cartão era dirigido a eles.
Premiê David Cameron classificou como despresível pichação xenofóbica em centro comunitário polonêsImage copyright Google
Image caption Premiê David Cameron classificou como execrável' episódios como a pichação em centro comunitário polonês
Segundo Gaynor, sua mãe ficou "chocada, furiosa, não conseguia acreditar".
A polícia de Cambridgeshire está investigando o caso e trabalhando "próximo à comunidade afetada".
O superintendente Martin Brunning disse que "produzir e distribuir este ou outro material similar é cometer o crime de incitar ódio racial, que é punido com pena máxima de sete anos de prisão".
"Todos os relatos de crime de ódio no país serão plenamente investigados".
Em Londres, a polícia investiga uma pichação em um prédio da associação polonesa de Hammersmith.
O embaixador da Polônia no Reino Unido, Witold Sobkow, disse estar "chocado e profundamente preocupado com os recentes incidentes de xenofobia dirigidos contra a comunidade polonesa e outros residentes de origem estrangeira".
O premiê David Cameron condenou os "execráveis" incidentes de crime de ódio no país. Falando perante o Parlamento, ele disse que houve casos de "abuso verbal" dirigido a minorias étnicas nas ruas, e disse que ataques do tipo têm de ser erradicados.
"Temos a responsabilidade fundamental de reunir nosso país" após o plebiscito, disse Cameron. "E não vamos aceitar crimes de ódio e ataques do tipo."

Sinais preocupantes

Quando a internauta Sarah Childs viu publicações abusivas no Twitter, decidiu colocar o tema em evidência.
"Eu esperava que isso acontecesse porque havia muitas coisas ruins dos dois lados da campanha pelo referendo", disse ela.
Childs é branca e britânica. Ela formou um grupo na internet com amigos descendentes de indianos e de paquistaneses. Uma página que eles criaram no último domingo - a Worrying Signs (Sinais Preocupantes) - já reúne mais de 10,5 mil membros.
"Queríamos criar um espaço para as pessoas que se sentiam inseguras", explica Sarah. O grupo compila diversos casos e publicações com conteúdo intolerante na rede.
"Acho que é fácil para as pessoas repudiar incidentes isolados de abuso, mas é mais difícil ignorar se as experiências são reunidas em um só local", disse.

BBC 

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