segunda-feira, 4 de julho de 2016

A vida de volta ao mangue no Cabanga


Projeto Mão no Mangue, do Cabanga Iate Clube de Pernambuco, recolheu mais de 50 toneladas de lixo do bioma e garantiu o ressurgimento de várias espécies

Por Priscilla Costa
Fotos: Rafael Furtado


Tainha, bocamole, saúna, camurim, carapeba, xié, siri, sururu e até pássaros. Até 40 anos atrás, ver qualquer espécie dessa próxima ao mangue que margeia parte da Bacia do Pina era quase impossível. No entanto, graças ao trabalho braçal de pescadores do estuário do Pina, Brasília Teimosa e Ilha de Deus, a natureza voltou a ocupar o seu espaço. Ao longo dos últimos meses, mais de 50 toneladas de lixo foram recolhidas do mangue. E a resposta da natureza foi imediata: uma ressurreição da diversidade de peixes, crustáceos, pássaros e mamíferos que agora podem ser vistos facilmente. A iniciativa faz parte do projeto Mão no Mangue, do Cabanga Iate Clube de Pernambuco, em parceria como Movimento Amigos do Mangue. A limpeza, feita a cada 15 dias, se concentra numa área de aproximadamente sete mil metros quadrados, extensão do “quintal” vizinho ao clube.
Sandra Helena do Nascimento, 40 anos, trabalha catando mariscos desde os tempos de criança. Foi da mãe que ela herdou o ofício. “A gente que sobrevive da maré depende do mangue. Se ele não está sadio, os mariscos se afastam. Fazendo essa limpeza, eu estou ajudando toda a comunidade pesqueira. E já está surtindo efeito”, comemorou, mostrando um filhote de aratu nas mãos. O pescador Francisco Romeiro, 58, fez coro com a colega: “O mangue é a nossa base. Mantê-lo limpo faz todo mundo ganhar. Se todos fizessem a sua parte seria outra história”, analisou ele, que pesca há mais de 30 anos. O projeto teve início em setembro passado e durante todo esse trabalho, além de lâmpadas, roupas, plásticos, latas, garrafas pet também foram encontrados colchões, porta de geladeira, carcaça de computador, pneus e isopor.

"HÁ MUITOS ANOS NÃO VÍAMOS A ANDADA DE UM CARANGUEJO. HOJE ISSO É POSSÍVEL. O MANGUE VOLTOU A SER BERÇÁRIO DE VÁRIAS ESPÉCIES”, Jaime Monteiro, Comodoro do Cabanga Iate Clube de Pernambuco

PIONEIRO
Em 70 anos, desde a fundação do Cabanga Iate Clube, é a primeira vez que uma atividade de educação ambiental é feita. O comodoro Jaime Monteiro relembrou que há vários anos os sócios não tinham condições de passar pela passarela onde algumas embarcações estão atracadas, devido ao mau cheiro e à grande quantidade de mosquitos. “O Cabanga está fazendo a sua parte, cuidando do seu jardim. Há muitos anos não víamos a andada de um caranguejo. E depois da restauração, isso foi possível. O mangue voltou a ser o berçário para várias espécies”, destacou. Além da limpeza, uma sementeira com 100 mudas de mangue branco, vermelho e preto foi criada. A ideia é inseri-las nas áreas degradadas do manguezal.


RECAPIBARIBE 

Graças ao empenho de outros movimentos como o da ONG Recapibaribe, encabeçada há 20 anos pelo casal André e Socorro Cantanhede, o rio respira mais um pouco e consegue ser digno dos poemas dedicados a ele. Como uma forma de estimular a “caçada” ao lixo, todo ano, em agosto, a ONG reúne cerca de 40 pescadores que, numa verdadeira maratona, recolhem todo o lixo encontrado pelo percurso. A ação, chamada “Há Gosto pro Capibaribe”, recolheu em agosto passado três toneladas de entulhos. 


A meta para este ano é cinco toneladas. Para custear os gastos, um festival beneficente de música será realizado no Capibar no próximo dia 9. A entrada custará R$ 15 mais 1kg de alimento não perecível. “Estamos aqui para somar. Todo projeto em prol do meio ambiente é bem-vindo, pois estamos lutando pelo mesmo objetivo. O Capibaribe percorre por 42 municípios e é fonte de sustento de muita gente. Não podemos deixar esse lindo cartão postal morrer”, alertou Socorro.




Folha PE

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