quinta-feira, 7 de julho de 2016

As algas 'guacamole' que obrigaram a Flórida a declarar estado de emergência

CianobacteriaImage copyright AP
Image caption Algas se reproduziram devido a despejo de água com 'excesso de nutrientes' em rio
O paraíso com sol e praia que os moradores e turistas da costa leste da Flórida (EUA) normalmente aproveitam no verão foi invadido por uma massa verde viscosa e com um cheiro horrível.
A proliferação de algas tóxicas, que por seu aspecto foram batizadas de "guacamole", está prejudicando a economia local.
O governador Rick Scott declarou estado de emergência para quatro condados que dependem fortemente do turismo.
Estas algas, além disso, têm o potencial de destruir os ecossistemas da região, como explica o pesquisador Henry Briceño, da Universidade Internacional da Flórida.
Algas em St. LucieImage copyright AP
Image caption Concentração de algas se dá principalmente onde há pouca circulação de água, perto de resorts e casas de praia
"É um espetáculo dantesco. As águas nos canais e rios têm um tapete verde, um limo cinzento e um cheiro de amônia", descreve Briceño à BBC Mundo, o serviço em espanhol da BBC.
As algas "guacamole" afetam desde o estuário do rio St. Lucie - onde há hotéis, residências privadas e clubes de iates - à lagoa Indian River, que abarca as localidades de Stuart, Port St. Lucie e Fort Pierce, e a parte das famosas praias de Palm Beach.
Outros quatro condados foram obrigados a fechar praias e viram uma enorme queda na chegada de turistas nos últimos dias.
"Isso destruiu nossa economia local e nosso modo de vida. Nossos cidadãos estão demandando ação rápida", disse a representante local Sarah Heard, do condado de Martin.
E como chegou-se a esta situação?
CianobacteriaImage copyright AP
Image caption Cienobactéria é tóxica e contato com água deve ser evitado.

Algas

A "guacamole" é um tipo promitivo de alga, uma cianobactéria, microoganismo fotossintético de aspecto verde-azulado e viscoso, que se multiplicou nestes quatros condados, principalmente na água doce, mas, em menor medida, na água salgada.
Em qualquer corpo de água do mundo existem algas, mas a reprodução deste microorganismo neste caso foi fora do comum.
Isso se deve ao fato de que uma represa no lago Okeechobee, a oeste de West Palm Beach, estava liberando, até 1º de julho, cerca de 85 metros cúbicos de água por segundo, informou o Corpo de Engenheiros do Exército americano.
"Essas águas têm altos conteúdos de nutrientes, especialmente fósforo e nitrogênio, e isso faz disparar a floração das algas", explica Henry Briceño.
"As algas estão ali em concentrações muitos pequenas, mas quando chega esse excesso de comida, de boa qualidade, a multiplicação dispara e ocorre muito rapidamente."
Dique Herbert HooverImage copyright Getty Images
Image caption O dique Herbert Hoover, do lago Okeechobee, é por onde está sendo liberada a água com fósforo e nitrogênio que deu origem à proliferação de algas.
A liberação controlada de água ocorreu porque o lago Okeechobee, o maior corpo de água da região, alcançou antes do início das chuvas, 4,5 metros de altura - e seu limite é 5,4 metros.
"Depois de ver as algas, nos sentimos obrigados a tomar medidas. Mas temos que permanecer vigilantes na gestão do nível do Lago Okeechobee", disse o coronel Jason Kirk, do Corpo de Engenheiros.
Esta semana o fluxo de água foi diminuído de 85 para 33 metros cúbicos por segundo.

Potencial mortal

As "guacamoles" só puderam se reproduzir deste jeito por causa da água da represa e seu conteúdo excepcional de fósforo e nitrogênio - devido aos restos de fertilizantes da indústria agrícola regional, e em menor medida pelos químicos usados para a manutenção da grama nos campos de golf.
"Muitos desses nutrientes não são utilizados pelas plantas e todo esse excesso termina arrastado pelas água da chuva para os rios e terminam no lago", disse Briceño.
Barcos rodeados por algasImage copyright AP
Image caption Além do aspecto e do cheiro, a água com cianobactérias tem o potencial de destruir a fauna e a flora .
Essas algas também devem causar problemas para a fauna e flora local.
"Ela vão apodrecer e vão tapar toda a fauna e flora que há no fundo destas baías. (...) Se este efeito continuar, chegará um momento em que as destruirão totalmente", explica Briceño.
Foi o que ocorreu na baía de Chesapeake, no noroeste dos EUA, que na década de 1970, quando os baixos níveis de oxigênio na água provocaram a morte de milhares de peixes.

Que fazer?

O condado de St. Lucie lançou uma advertência para que os habitantes e turistas das zonas afetadas evitem qualquer contato com as citobactérias devido a seus efeitos para a saúde humana.
Suas toxinas podem afetar o fígado, o sistema nervoso e a pele. Ingerir a água contaminada pode causar dor abdominal, náuseas, diarreia e vômito.
Também não se pode consumir peixe das áreas afetadas e de seus arredores.
Peixe morto na areiaImage copyright AP
Image caption Grande presença de água pode levar à mortandade de peixes.
Mas o lago Okeechobee continuará desaguando no rio St. Lucie enquanto continuar chovendo. Por isso, uma solução seria elevar sua capacidade com o dique que o contém ou levar a água até o Golfo do México.
"Não podemos perder de vista a necessidade de que o governo federal inicie de imediato as reparações do dique Herbert Hoover para que possa ser alcançada uma solução de longo prazo", disse o governador da Flórida, Rick Scott.
O dique tem 80 anos e enfrenta problemas estruturais que geraram inflitrações e uma capacidade limitada.
Briceño recomenda "reduzir a quantidade de água enviada e pensar se é possível armanezar água nos lagos ao norte de forma temporal". 

BBC

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