quarta-feira, 13 de julho de 2016

Bienal da Caixa Cultural abre espaço para o novo no Recife

Fotografia tem sido predominante como suporte para a forma de pensar contemporânea



Divulgação
Tacos fazem parte da memória dos espaços tradicionais

Em tempos idos, quando não havia internet ou espaços alternativos, os artistas iniciantes penavam para exibir seus trabalhos ao grande público. A salvação era o Salão dos Novos. Agora existem também editais especialmente voltados para os que nunca debutaram em uma mostra individual, e têm a oportunidade de participar de uma exposição coletiva numa grande galeria. 

Na Mostra Bienal Caixa de Novos Artistas, que chega ao Recife hoje, com abertura para convidados a partir das 19h, 24 artistas de todo o Brasil exibirão 36 trabalhos que passaram pela curadoria da curitibana Rosemeire Odahara Graça. “Escolhi obras que dialogassem com o contexto contemporâneo e suas relações regionais, locais e pessoais”, explica a curadora.


A fotografia tem sido predominante como suporte para a forma de pensar contemporânea, apesar de também haver espaço para a pintura, desenho, escultura, instalação. O brasiliense Ricardo Theodoro, formado em arquitetura, utilizou tacos sobre uma estrutura mole de aço e madeira, fazendo com que uma suposta forma concreta assumisse uma postura orgânica. “Converti o espaço de um apartamento em uma topografia. Para isso, trabalhei essa forma orgânica”, explica o artista. Esses tacos, segundo ele, fazem parte da memória dos espaços tradicionais, como a casa da avó, e estão cada vez mais raros, apesar de serem nobres, pois estão sendo substituídos pelos abomináveis porcelanatos. 

“Peguei-os em demolições. Mas tacos são facilmente achados no lixo, o que é uma pena, pois para mim fazem parte da memória afetiva, de quando era criança e brincava no chão, colocava o rosto nele”, conta Ricardo.

    Também chama atenção a obra “Assentos para sólidos moles”, do paranaense Eduardo Freitas, que brinca e confunde o sentido tátil e a visão ao criar almofadas de cerâmica com direito a todas as suas dobras formadas quando a tocamos, já que estamos acostumados a percebê-la como material feito de espuma. Sobre elas, figuras geométricas que aparentemente ‘afundam’ essas falsas almofadas fofas. Mas se tocadas, o observador percebe que são feitas de borracha de silicone. Houve aí uma troca de papéis.



    Divulgação
    Carioca Caio Pacela sugere pensar o significado do corpo humano nos tempos de radicalismo

    Outro objeto atraente é a caixa de pintura que, aberta, guarda restos de concreto, fazendo-nos pensar sobre construções que estão desaparecendo dos centros urbanos. Com o sugestivo nome de “Inventário”, a obra é da gaúcha Betina Guedes. Já o desenho dos membros de uma boneca de plástico, do carioca Caio Pacela, sugere pensar o significado do corpo humano nos tempos de radicalismo - de plástica, gastroplastia, dieta ruim e radical e exercícios exagerados ou sedentarismo.

    Se a técnica era menos importante do que a maneira de pensar contemporânea, o formato das obras não podia ser qualquer um, mas com condições de viajar. “Elas também não podiam ser efêmeras, nem construídas de maneira a danificar alguns dos espaços da Caixa Cultural. No caso do Recife, os painéis foram desenhados para dar suporte a cada uma das obras”, justifica Rosemeire.

    Afinal, são dois anos que a exposição fica em cartaz por todo o Brasil. Antes de desembarcar na capital pernambucana, onde abre para visitação do público no dia 13 e fica até 21 de agosto, a mostra começou em dezembro de 2015, em Curitiba, passou por São Paulo, Brasília, Fortaleza, e daqui segue para Salvador e Rio de Janeiro.

    A maior parte dos artistas são do Rio de Janeiro e de São Paulo, e infelizmente não há nenhum nome pernambucano entre os selecionados. “Quando a instituição faz o edital, é preciso que outras instituições comprem a proposta, divulguem, o que faz com que novos artistas fiquem sabendo e desperte interesse. Além disso, o número de instituições de ensino de arte é maior no Rio e em São Paulo”, pondera a curadora.

    Serviço
    Mostra Bienal Caixa de Novos Artistas
    Onde: Caixa Cultural (av. Alfredo Lisboa, 505, Bairro do Recife)
    Quando: Abertura terça (12), às 19h.
    De 13 de julho a 21 de agosto (terça a sábado, das 10h às 20h;
    Domingos, das 10h às 17h
    Quanto: Entrada gratuita


    Carol Botelho, da Folha de Pernambuco

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