segunda-feira, 18 de julho de 2016

Desenvolvimento que sai da chaminé das usinas em Pernambuco

Ativação da Pumaty e da Cruangi vem mudando os municípios da Zona da Mata



Jedson Nobre
Faturamento no primeiro ano foi de R$ 50 mi, diz Morais

As atividades da Usina Pumaty, localizada no município de Joaquim Nabuco, Zona da Mata Sul do Estado, estão fazendo a sua economia e a de cidades vizinhas começarem a respirar mais aliviada. A operação vai agora para a sua terceira safra, após dois anos de interrupção. Sob a administração da cooperativa Agrocan, formada por fornecedores de cana da região, a usina moeu 513 mil toneladas em 2014 e 420 mil toneladas no ano seguinte. Os problemas enfrentados com a seca em 2015 foram os culpados pela diminuição na produção passada. Já para este ano, a previsão é moer 700 mil toneladas e produzir 54 milhões de litros de etanol.

"A situação era preocupante, pois duas usinas tinham fechado e havia um milhão de toneladas de cana para moer na região. O comércio da região estava enfraquecido. Aí arrendamos a usina. Pegamos ela 'podre', compramos novos equipamentos e estamos pagando tudo em dia. O comércio das cidades vem se recuperando", afirmou Gerson Carneiro Leão, presidente do Sindicato dos Cultivadores de Cana-de-açúcar no Estado de Pernambuco (Sindicape).


Na primeira safra, foi feito um trabalho de recuperação do maquinário, com investimentos de R$ 10 milhões, de acordo com o gerente-geral da usina, Reginaldo Morais. Para a segunda safra, o investimento de R$ 7,5 milhões foi destinado à substituição da moenda e a recuperação de caldeiras e da destilaria. Neste ano, as atenções foram voltadas à renovação da plantação, que estava, em alguns lugares, misturada com o capim, o que impedia o crescimento adequado da planta. O próximo passo será de preparar a fábrica de açúcar, que deverá gerar mais 500 empregos.

Com a ativação da Pumaty têm sido injetados R$ 11 milhões por mês na economia de Joaquim Nabuco, Palmares, Água Preta, Xexéu, Gameleira, Ribeirão, Catende, Maraial e Jaqueira, todas na Mata Sul, além de Novo Lino, Jundiá e Jacuípe, no norte de Alagoas. Entre setembro e fevereiro, período da moagem, são gerados 4,8 mil empregos diretos e cerca de seis mil indiretos. "Esta usina é o sustentáculo da nossa cidade. Quando ela não estava funcionando, o comércio estava falido, e o desemprego estava muito grande.

Hoje, que ela está funcionando, isso diminuiu bastante", afirmou o prefeito de Joaquim Nabuco, João Carvalho. "A retomada se deve muito do empenho dos trabalhadores e fornecedores. No primeiro ano, produzimos 37 milhões de litros de etanol e tivemos faturamento bruto de R$ 50 milhões, recolhendo R$ 6,5 milhões em ICMS", comentou Reginaldo Morais.

Enquanto a Pumaty ficou parada, os trabalhadores tiveram de se virar para manter a família alimentada. O soldador Laecio Bezerra, de 50 anos, precisou sair da cidade. "Deixei a família aqui e trabalhei com empeleiteiros. Graças a Deus, que colocou esses homens aqui para abrir as portas", contou. Já o encarregado de caldeira José Ramos, 54, se virou como pôde. "Comecei trabalhando aqui aos 13 anos. Quando fechou, ficou difícil não só para mim, mas para todos os companheiros. Para nos mantermos, tivemos que fazer bico ou então dependíamos de parentes", relatou.

Momento semelhante vive a Usina Cruangi, na Zona da Mata Norte do Estado, onde a cooperativa Coaf assumiu as atividades. "A reabertura é muito importante para a região sul do Estado, em detrimento a varias usinas que estavam fechando, da diminuição dos estímulos à produção, do aumento do desemprego, com a produção migrando para a agropecuária. E a abertura trouxe de volta a autoestima do fornecedor de cana, porque lá ele recebe em dia, e isso estabilizou o comércio das cidades vizinhas", comentou Alexandre Andrade Lima, presidente da Associação dos Fornecedores de Cana de Pernambuco (AFCP).


Opinião parecida tem o presidente do Sindicato da Indústria do Açúcar e do Álcool de Pernambuco (Sindaçúcar), Renato Cunha. "O setor da indústria da cana-de-açúcar se depara no dia a dia com muitos componentes imprevisíveis, então a retomada e a continuidade de moagens são exemplos bastante saudáveis para a vitalidade da economia de Pernambuco, com geração de emprego e renda numa fase em que o Brasil precisa ainda reativar a sua economia. Essa moagem contribui para a economia das cidades", disse.

Comércio volta a ter lucro com a usina

"Quando a usina parou de funcionar, foi muito ruim para nós. Tivemos que diminuir a mercadoria, porque muita gente foi embora para o Rio de Janeiro, São Paulo, Goiás, e ficaram poucas familias. Aí quando voltou a funcionar melhorou um pouco. Não está como era antigamente, porque se sabe que o movimento está fraco para todo mundo", comentou. Para amenizar as perdas da parada da usina, os feirantes passaram a chegar ao centro do município na quinta-feira para esticar até o sábado.

Quem sentiu bastante o fechamento da unidade fabril foi o mercadinho Tudo Tem, de Maria Antonieta Brandão, 64. Ela precisou demitir oito de seus 15 funcionários no primeiro momento após o fechamento da usina. "Antes, as vendas eram bem melhores. Depois que a usina Pumaty fechou, o comércio caiu acho que 90%. Agora que ela está retornando, melhorou um pouco. Eu cheguei a ter 15 funcionários, e hoje eu só tenho seis mais a família, que me ajuda", contou. "Se tivesse mais uma empresa grande aqui na região, seria melhor ainda para o comércio", acrescentou.

Já o comerciante Jario Manoel da Silva, 28, quase fechou sua loja de artigos eletrônicos no período em que a cidade ficou sem a atividade da Pumaty e se mostrou um pouco mais esperançoso. "Ficou muito difícil. Eu esticava o rendimento um pouquinho de um lado, um pouquinho do outro e quase fechei as portas. Hoje melhorou uns 40%. Vamos andando devagarinho. Não chegou ao que era antes, mas está chegando", afirmou, animado, Manoel.

Geraldo Lélis, da Folha de Pernambuco

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